Após revelações de série, acusadas do caso Evandro anunciam ação contra torturadores

Segundo a acusação, a criança foi sacrificada para "abrir os caminhos" para a política e os negócios da família

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) – A investigação aprofundada do jornalista Ivan Mizanzuk, que resultou no podcast e depois na série televisiva “O Caso Evandro”, no ar na Globoplay, foi um incentivo para que duas das acusadas pela morte do menino, Celina e Beatriz Abagge, falassem abertamente sobre as torturas que sofreram para confessar o crime e buscassem a condenação dos abusadores.

No último mês, elas lançaram o livro “Malleus: relatos de injustiça, tortura e erro judiciário”, em que contam sua versão da história, desde o momento em que foram pegas pela polícia em casa, em Guaratuba, no litoral do Paraná, em 1992, até os anos que passaram numa penitenciária na região de Curitiba e os julgamentos a que foram submetidas.

Elas foram apontadas como as mandantes do sequestro e da morte de Evandro Ramos Caetano, 6, que teria ocorrido durante um ritual. Segundo a acusação, a criança foi sacrificada para “abrir os caminhos” para a política e os negócios da família Abagge.
“Se houve um ritual, foi contra a família Abagge, esse sim existiu”, afirmou Celina em uma conversa da reportagem com ambas por videoconferência.

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Em paralelo, a defesa da filha, Beatriz, prepara um pedido de revisão criminal sobre o último julgamento, de 2011, que a considerou culpada pelo desaparecimento e morte de Evandro – a mãe, Celina, não chegou a ser julgada, pois a acusação contra ela prescreveu pelo fato de já ter 70 anos. No primeiro júri, realizado em 1998, ambas foram inocentadas.

A equipe de advogados, coordenada por Antonio Figueiredo Basto, vai buscar também a condenação de policiais e uma reparação do estado pelos abusos. As fitas com as confissões foram editadas e as versões originais, que confirmam as torturas, foram obtidas por Mizanzuk durante a produção do podcast e ouvidas pelas Abagge no sétimo episódio da série televisiva.

“Vamos até o fim para conseguir que as pessoas sejam responsabilizadas”, disse Beatriz. Aos 57 anos, ela é funcionária pública há 30 e, desde 2016, é terapeuta ocupacional no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Guaratuba. Incentivada pelo caso, Beatriz também se formou em direito.

“[Buscamos] o resgate do nosso nome, da família Abagge”, completou Celina, 82. Ela hoje está aposentada e vive com outra filha em Curitiba.

Elas afirmam que, se o pedido de condenação pelas torturas não for aceito no Brasil, pretendem seguir até a Corte Interamericana de Direitos Humanos. “Se aceitarem deixar essas pessoas soltas, livres, ao invés de pagarem pelo crime que praticaram contra qualquer pessoa, então o Paraná é favorável à tortura, está [agindo] fora da Constituição”, disse Beatriz.

O nome do livro, segundo as autoras, parte da alcunha que receberam diante da acusação. Elas eram conhecidas como as “bruxas de Guaratuba”. “Malleus Maleficarum”, ou Martelo das Bruxas, era o nome do manual usado para julgá-las durante a Idade Média.

“Esse martelo do juiz serviu exatamente na época para a Inquisição e depois para martelar uma ‘verdade’, acabar com a gente”, disse Beatriz, que hoje segue o espiritismo. “Se eu pudesse estar num centro de umbanda agora, estaria, só não vou porque senão a imprensa tá em cima.”

Assim como na época, Celina continua praticando o catolicismo.

A filha acredita que, além de preconceito sobre as religiões de matriz africana, a mira das investigações também denota um caráter sexista. “A referência [ao caso] eram as bruxas, ninguém falava dos homens”, ressaltou, citando os demais cinco acusados pelo crime à época, todos homens.

O pai de santo Osvaldo Marcineiro, o amigo dele, Vicente de Paula Ferreira (que morreu na prisão, em 2011), e o artesão Davi dos Santos Soares foram condenados em 2004. Já Francisco Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli, funcionários da Serraria Abagge, onde teria ocorrido o ritual, foram absolvidos em 2005.

Apesar de também condenada a 21 anos e quatro meses de prisão, Beatriz conseguiu em 2016 o perdão da pena, conforme decreto que garantia indulto a condenados a mais de oito anos de prisão que tinham, entre outros requisitos, filhos menores de 18 anos, como era o caso dela.

Deixar um relato para os filhos de Beatriz, netos de Celina e outros familiares também era o objetivo do livro. Elas contam que nem eles sabiam detalhes das torturas, como o abuso sexual sofrido por Celina, como ela revelou também na série da Globoplay.

“A família já estavam passando por uma tortura com a gente presa, fazendo tudo para nos tirar, como íamos comentar as barbáries que passamos? Não tinha como”, justificou Celina.
Com a série, elas mesmas conseguiram ver pela primeira vez cenas da época, como moradores de Guaratuba apedrejando a casa delas após serem apontadas como culpadas. Morto em 1995, Aldo Abagge, marido de Celina e pai de Beatriz, era prefeito da cidade.

“Tudo mexeu muito comigo […]. Até a mãe ficou com medo de que eu saísse em Guaratuba e saí por tudo, não aconteceu nada, porque as pessoas já conhecem a história”, afirmou a filha.

“Passei mal, fiquei brava, porque vi um torturador numa boa sem pagar nada, sem ninguém cobrar nada. Me abalou”, disse a mãe.

Segundo elas, o poder político de Aldo, aliado às cobranças dos paranaenses em torno do desaparecimento de crianças na época e ao preconceito religioso, além de investigações conduzidas pelo “ouvi dizer”, levaram às acusações.

Continuando o trabalho do pai, mãe e filha ainda hoje procuram por pistas de Evandro, quem a família Abagge acredita ainda estar vivo. “Não o matamos, então, da nossa parte, não existe morte, não existe menino morto”, afirmou Celina.

Para Beatriz, a esperança é de que as produções atuais em torno do caso ajudem a encontrar o menino, que estaria hoje com 35 anos. “Se a família [de Evandro] realmente está satisfeita e acredita que isso aconteceu [a morte do menino], sinto muito por eles porque ainda temos esperança, mas não queremos que se sintam desconfortáveis com a nossa opinião.”

A filha conta que, por sempre falar sobre o caso nas redes sociais, sofreu muitos ataques, mas, depois das revelações de Mizanzuk, houve uma mudança de olhar sobre elas, principalmente por parte da imprensa. “Antes era assassina, agora é supostamente, esse tipo de coisa mudou, mas ainda existe uma coisa velada sobre nós.”

Mesmo havendo opiniões diferentes sobre o caso, elas dizem que se preocupam apenas com a declaração de inocência por parte da Justiça.

“Sempre vão ter aqueles que vão nos acusar, mesmo ouvindo o podcast ou vendo a série, e outros que vão ter empatia e começar a observar, servindo de lição para que não aconteça com outras famílias”, concluiu Beatriz.

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