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Varíola de macacos: ‘Não há motivo para pânico, tem vacina, remédio e pode ser contida’, diz virologista

Em entrevista ao GLOBO, Clarissa Damaso, membro de comitê da OMS também afirma que ainda há questões sem respostas em relação ao surto

Especialista em vírus pox, família que inclui a varíola – a única doença humana oficialmente erradicada pelo ser humano, em 1980 – e a varíola de macaco, a virologista Clarissa Damaso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Comitê Assessor para a Pesquisa da Varíola da Organização Mundial de Saúde (OMS), assegura que não existe motivo para pânico porque a doença pode ser contida com vacina e medicamentos que já existem.

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Mas ela destaca que a disseminação pelo mundo de uma doença antes restrita a casos na África ou importados de lá preocupa. Ainda não está claro como o vírus está se espalhando, mas a OMS já está acompanhando atentamente todos os casos.

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Qual o risco que a varíola de macaco representa?

Ela está causando um surto de disseminação simultânea até agora misteriosa porque os casos não têm relação direta com a África. A doença se originou lá, mas não se sabe como chegou a pessoas que não estiveram em países africanos ou com contatos que vieram de lá. Então, por ora, sabemos como conter casos, mas não como impedir que outros surjam em lugares diferentes. Para isso, é preciso descobrir como está se espalhando. As vias características são respiratória face-a-face e contato direto com as lesões, mas isso não explica o surto atual.

Qual a magnitude da preocupação?

Não há motivo para pânico porque se trata de uma doença conhecida para a qual temos tratamento e vacina, uma doença que pode ser contida. Os estoques existentes podem ser rapidamente aumentados em caso de necessidade. Temos sim um recado de alerta de que os vírus podem mudar e estão sempre em busca de oportunidade para se espalharem.

É preciso pensar em vacinação nesse momento?

Para a população em geral, não. Por ora, a vacina pode ser uma opção para pessoas que tiveram contato com os doentes e profissionais de saúde em países em que há casos.

Qual é a vacina?

A vacina é a da varíola. Os vírus da varíola humana e da de macaco pertencem à mesma família, Poxviridae e ao mesmo gênero, Orthopoxvirus. Os orthopox causam imunidade cruzada. Isto é, a vacina para um oferece proteção contra os outros. A vacina da varíola humana protege contra a varíola de macaco. Mas vale lembrar que as pessoas nascidas depois de 1979 no Brasil não foram vacinadas porque este foi o último ano antes da declaração de erradicação. A varíola é a única doença humana erradicada no mundo e a OMS a classificou dessa forma globalmente em 1980. Alguns países pararam de vacinar até antes.

Mas essa vacina ainda existe?

Sim, ela existe por razões de biodefesa, o vírus varíola é considerado uma arma biológica, há estoques de segurança. E recentemente foi aprovada nos EUA e na Europa uma vacina mais moderna, que não forma pústula. É feita com um vírus vaccínia mais atenuado, o BN-MVA, que não se replica em seres humanos. É indicada para militares e pessoas que pesquisam vírus Pox.

E o tratamento?

Há dois novos medicamentos antivirais contra a varíola, também desenvolvidos para biodefesa em militares e pesquisadores de vírus pox. Foram aprovados em 2019 e 2021 nos EUA. E, se necessário, podem ser produzidos em quantidade, assim como a vacina.

A vacina da catapora pode ajudar?

Não. A catapora é causada por vírus da família do herpes. São doenças diferentes. Mas o diagnóstico clínico, para médicos sem familiaridade com os vírus da família da varíola, isto é, a maioria, precisa ser criterioso porque pode confundir. Mas há sinais bem diferentes. As pústulas da varíola de macaco aparecem todas as ao mesmo tempo e uma evidente linfoadenopatia surge antes das lesões, por exemplo. O importante é que pessoas sintomáticas com teste negativo para catapora sejam testadas para varíola de macaco.

Quão grave é a varíola de macaco?

Na África ela pode chegar até 1% de letalidade, mas isso pode ser devido à falta de tratamento adequado. É uma doença quase sempre branda, mas estigmatizante devido às pústulas que surgem em todo o corpo. Pode deixar sequelas, como manchas e marcas profundas nos locais das lesões. É uma doença muito desagradável de ver.

Os surtos de varíola de macaco causaram surpresa?

Não para nós especialistas em vírus pox. Temos vistos surtos maiores na África. A Nigéria reportou centenas de casos desde 2017 e tem surtos ativos este ano. Na República Democrática do Congo houve 2.780 casos só nos primeiros três meses de 2022, mas ela é um outro subtipo, mais virulento, da mesma doença que circula. E tem ocorrido esporadicamente casos importados nos EUA, no Reino Unido e Israel. O que causou surpresa foi a forma como provocou pequenos surtos simultâneos em EUA, Canadá e Europa e com casos sem origem que possa ser associada diretamente à contato com a África.

Tem se falado que poderia ter transmissão sexual, já que muitos casos reportados são entre os homens que fazem sexo com homens. O que se sabe sobre isso?

A transmissão sexual é possível, mas essa hipótese, a princípio, não explica o surgimento de casos em pessoas em diferentes países sem histórico de contato com a África. Esse é o grande nó que temos que desfazer. É fundamental entender como o surto está acontecendo e sendo transmitido na Europa, EUA e Canadá. A transmissão sexual sozinha não parece explicar isso. Ela é possível, mas sozinha não espalharia a doença assim. Há pontos dessa história que precisamos conhecer e conectar.

Por que a doença parece tão nova?

Ela parece nova fora da África, lá causa surtos anuais há anos. O primeiro caso em humanos é de 1970, na África. Mas infelizmente o resto do mundo não se importa com o que acontece na África. Além disso, a varíola humana, mais grave porém com sintomas semelhantes, obscureceu a varíola de macaco até ser erradicada, ela ficava à sombra. Foi somente após a erradicação da varíola humana que se começou a prestar atenção nela. Mas veja que até o nome é ingrato. Na verdade, não é uma doença de macacos. É uma doença originalmente de roedores silvestres. Recebeu esse nome porque foi descrita em macacos usados para a pesquisa, em 1958.

O que esse surto de varíola de macaco nos mostra?

Ele testa se aprendemos alguma coisa com a pandemia de Covid-19. Ambos os vírus são causadores de zoonoses, doenças surgidas no meio silvestre, em animais, e que passam para o ser humano. Os surtos acendem o sinal de alerta sobre os efeitos diretos do desmatamento para a saúde humana, ao colocar em contato vírus silvestres com pessoas, que invadem áreas outrora ocupadas por floresta. É o caso da origem do coronavírus e da varíola de macaco. Um alerta que se amplifica no Brasil, onde a maior floresta tropical da Terra sofre com aumentos explosivos do desmatamento desde 2019. Coisas diferentes podem ocorrer à medida que há grandes alterações, como as mudanças climáticas. Esse é o princípio de saúde única na prática, na vida real. Não existe saúde humana sem saúde ambiental.

Por O Globo

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