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Autor paraibano por trás de fenômeno da Netflix prepara livro sobre o caso “Vaqueirinho”
27/02/2026 / 06:38 / Matheus Melo
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Do Top 3 da Netflix ao livro sobre o caso “Vaqueirinho”: o novo capítulo de Phelipe Caldas. Na foto, o autor em visita ao Fórum Criminal de João Pessoa, realizando pesquisas para o livro – Foto: Arquivo pessoal

Quando o filme “Inexplicável” alcançou o Top 3 global da Netflix e entrou no ranking dos 10 mais assistidos em 19 países, o nome do paraibano Phelipe Caldas passou a circular em escala internacional. Mas, para o jornalista, escritor e professor, o sucesso da adaptação cinematográfica não alterou a essência da sua trajetória: ele continua sendo, antes de tudo, um autor independente em busca de histórias que precisam ser contadas.

Autor de “O Menino que Queria Jogar Futebol”, obra que deu origem ao fenômeno do streaming, Phelipe vive hoje um paradoxo raro no mercado editorial brasileiro. Enquanto sua história inspira um dos maiores sucessos recentes da plataforma, ele escreve um novo livro denso e crítico sobre a morte do jovem Gerson de Melo Machado, atacado por uma leoa no zoológico da Bica, em João Pessoa.

Phelipe faz questão de esclarecer que, no livro, não se refere a Gerson pelo apelido “Vaqueirinho”. Ele explica que o apelido surgiu em meio a um processo de violências sofridas pelo jovem e acabou reforçando estereótipos, estigmas e preconceitos. O autor pretende problematizar essa questão ao longo da obra, mostrando que Gerson não gostava de ser chamado assim e contextualizando historicamente como o apelido se consolidou.

Doutor pela Universidade Federal de São Carlos e mestre pela Universidade Federal da Paraíba em antropologia social, pesquisador de futebol popular e democrático, Phelipe transita entre a universidade, o jornalismo e a literatura com a mesma convicção: contar histórias é um ato de responsabilidade social.

Filme é filme, livro é livro

Phelipe faz questão de separar as linguagens. “O que alcançou o Top 3 mundial foi o filme. O livro é outra coisa”, pontua.

Ele reconhece que o sucesso abriu portas, inclusive nas entrevistas para o novo projeto. “As pessoas dizem: ‘ah, você é o rapaz que escreveu o livro que virou filme’”. Mas rejeita a glamourização. Como professor, afirma, não muda muita coisa: continua estudando, prestando concursos, disputando espaço acadêmico.

Lançado inicialmente de forma independente, o livro ganhou nova edição por uma editora nacional, agora dialogando diretamente com o título do filme.

“O Brasil ainda precisa formar público leitor. Não é porque o filme foi um sucesso que o escritor passa a ser lido por todo mundo.”

A fala expõe um dado estrutural: o abismo entre o alcance do audiovisual e o mercado editorial brasileiro, uma equação central para entender a economia criativa no país.

No evento literário em João Pessoa no ano passado, Phelipe Caldas (ao centro, de vermelho) fala ao microfone, enquanto Fabrício Bittar (de preto, à esquerda), diretor do filme Inexplicável, acompanha a programação – Foto: Arquivo pessoal

Direitos autorais e negociação: sem romantização

“Houve uma negociação longa, transparente e correta”, afirma, referindo-se à produtora Clube Filmes.

Ele lembra que contratos são firmados sem que se tenha dimensão do alcance futuro do projeto. “Na hora da negociação, ninguém imagina que o filme vai alcançar essa visibilidade.”

O episódio revela um ponto sensível do mercado brasileiro: a assimetria entre expectativa pública e realidade contratual de autores. O sucesso global não necessariamente se converte em fortuna pessoal, e essa dissociação ainda é pouco compreendida fora do setor.

A tragédia que virou projeto de longa duração

Se “Inexplicável” foi uma história de fé e superação, o novo livro mergulha na ausência de proteção social.

Phelipe já analisou milhares de páginas de processos e entrevistou dezenas de pessoas. O livro, que já ultrapassa 140 páginas, investiga o contexto da morte de Gerson de Melo Machado.

Sem antecipar revelações, ele afirma que o episódio não foi isolado.

“Gerson teve seguidos abandonos, seguidos descasos, seguidos negligenciamentos. Não existe um culpado. Existem muitos culpados.”

A crítica mais contundente, porém, é direcionada à cobertura imediata do caso. Segundo ele, houve precipitação, exposição indevida de imagens e violação de protocolos, especialmente quando se cogitou suicídio.

Ele aponta dois problemas centrais: o sensacionalismo impulsionado por engajamento nas redes sociais, inclusive por profissionais de imprensa; e a limitação estrutural das redações, que não dispõem de tempo e espaço para investigações profundas.

“Alguns assuntos só são possíveis de ser cobertos em sua totalidade dentro de uma apuração de longa duração”, diz, defendendo o livro-reportagem e o documentário como formatos capazes de romper a superficialidade da cobertura diária.

Phelipe Caldas ao lado de Mirela Vasconcellos, jornalista responsável pela produção do novo livro e pelo contato com entrevistados durante as pesquisas

Jornalismo como construção de memória

“O jornalismo é ferramenta de construção de memória e responsabilidade social”, reforça o professor.

Para ele, boas histórias não são necessariamente felizes, são histórias que precisam ser contadas. Sua formação em antropologia reforça essa perspectiva, enxergando o que está invisível no cotidiano.

A morte de Gerson ganhou repercussão pela forma impactante como ocorreu. Mas, segundo o autor, o que o livro pretende revelar é algo maior: a existência de “muitos Gersons invisíveis”, jovens marcados por negligência estrutural.

Economia criativa, invisibilidade e mercado

A trajetória de Phelipe Caldas expõe duas camadas do Brasil contemporâneo:

De um lado, a potência global do audiovisual, capaz de colocar uma história local no Top 3 mundial.

De outro, a fragilidade do mercado editorial e as limitações estruturais do jornalismo diário.

Entre o streaming global e a investigação de uma tragédia local, o autor paraibano demonstra que o verdadeiro impacto não está apenas em rankings internacionais, mas na capacidade de transformar histórias em reflexão coletiva.

Enquanto o filme alcança milhões de telas, ele se dedica a escrever sobre invisibilidades, talvez o ativo mais valioso do jornalismo que resiste ao imediatismo.