Neste fim de semana, uma onda diferente tomou conta das redes sociais. Parlamentares, assessores e até pré-candidatos apareceram em versões encantadas, como se tivessem saído de um filme de Hayao Miyazaki, do lendário estúdio japonês Ghibli. Com olhos brilhantes, cenários bucólicos e poses cinematográficas, políticos de diferentes matizes embarcaram no filtro da vez: o estilo Ghibli, agora disponível para todos os usuários do ChatGPT versão 4, lançado na última terça-feira (25).
A novidade, claro, é fascinante. Com apenas uma foto, a inteligência artificial transforma rostos comuns em personagens de um universo mágico. O problema, no entanto, está na mensagem que isso acaba transmitindo. Para muitos eleitores, a sensação é a de que a classe política vive em um eterno faz de conta, imersa em distrações enquanto os problemas reais seguem sem solução.
Não é à toa que muitos especialistas têm apontado esse tipo de dissociação como um dos fatores que explicam o avanço da direita em várias partes do mundo. De Donald Trump a Javier Milei, passando por Giorgia Meloni e pelo retorno do discurso nacionalista em diversos países da Europa, o fenômeno tem uma base comum: a descrença popular de que a política tradicional, muitas vezes associada à esquerda, tem se mostrado ineficaz para resolver questões concretas da vida das pessoas.
E que questões são essas? Segurança pública, acesso à saúde de qualidade, desemprego, educação básica, crise climática, custo de vida, moradia, transporte. Problemas que afetam o cotidiano de milhões de pessoas no Brasil e em todo o mundo. Em vez de soluções, o que muitos enxergam é uma elite política entretida com filtros, trends e performances que, apesar de carismáticas, não enchem barriga nem garantem o futuro das famílias.
Isso não significa que não se possa brincar. A estética Ghibli é encantadora e faz parte do nosso imaginário coletivo, alimentado por décadas de animações sensíveis e atemporais. Mas é preciso saber dosar. Ninguém é contra um pouco de leveza na política. O risco está em transformar a política em espetáculo contínuo, onde a fantasia substitui o enfrentamento dos dilemas reais.
Ruy Dantas é jornalista e publicitário, fundador do Ilha Tech, um hub de inovação que abriga três startups. Atualmente, atua como CEO da RD Innovation, uma consultoria especializada em inovação, e como presidente do Sim Group, uma holding de empresas que oferece soluções customizadas de publicidade e comunicação para diversos segmentos. Possui especialização em gestão, negócios e marketing, além de formação em conselhos pela Fundação Dom Cabral. Nos finais de semana, escreve neste espaço sobre comunicação e marketing político.