
Por Christian Jauch
Estamos em 2026. O Brasil mais uma vez se vê em um momento decisivo, onde a tecnologia invade as campanhas, mas o recado permanece claro: o algoritmo não vota.
De um lado, enfrentamos problemas persistentes como segurança pública, inflação, saúde, educação. Do outro, uma transformação acelerada por ferramentas digitais, dados em tempo real e inteligência artificial (IA), mudando radicalmente a forma como a política se comunica com o cidadão.
É uma espécie de paradoxo moderno: quanto mais recursos temos para alcançar o eleitor, mais desafiador é gerar uma conexão real. A tecnologia ampliou o alcance, mas não garante confiança. E no final, é essa confiança que decide o voto.
A tecnologia, sim, é a ponte. Mas o destino final, sempre, será a confiança entre pessoas. Porque no fim das contas, o algoritmo não vota.
A IA deixou de ser tendência para se tornar protagonista nas campanhas. E ela muda tudo.
Antes, só campanhas grandes conseguiam produzir vídeos de alto impacto, jingles envolventes ou peças criativas com qualidade. Hoje, com IA generativa, qualquer equipe pode criar conteúdo relevante com qualidade profissional e baixo custo. Isso nivela o jogo.
Mais que isso, a IA permite analisar milhões de dados, entender perfis, prever comportamentos e entregar mensagens segmentadas, personalizadas, certeiras.
Mas atenção: a IA não cria mensagem, só amplifica. Se a proposta for fraca, vazia ou fora da realidade do eleitor, não há algoritmo que salve. A estratégia e a sensibilidade continuam sendo o coração de toda campanha.
A tecnologia é poderosa, mas não pensa por você. Ter acesso às melhores ferramentas não substitui o entendimento político e social do eleitorado.
A IA pode automatizar postagens, sugerir discursos, monitorar tendências. Mas não capta o desabafo da dona Maria sobre o posto de saúde ou a revolta do Seu João com o desemprego. Ela não sente. Ela não vota.
Campanhas que se apoiam demais na estética digital, sem conteúdo de verdade, correm o risco de parecerem robóticas. E o eleitor percebe isso. Ele quer clareza, verdade, empatia. E isso não se programa com código.
Com o avanço da IA, também vieram os riscos.
Os deepfakes, os áudios forjados e as imagens manipuladas já são parte da realidade. Ferramentas de IA podem ser usadas tanto para informar quanto para enganar. Por isso, a Justiça Eleitoral está cada vez mais atenta.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras específicas que obrigam a identificação de conteúdo gerado por IA. E essa fiscalização tende a ser cada vez mais rígida.
Não basta parecer ético. É preciso ser ético. A confiança do eleitor é um ativo valioso, e o uso indevido da tecnologia pode destruí-la rapidamente. Vencer sem credibilidade é uma vitória frágil.
Enquanto a tecnologia avança nas campanhas, o Brasil real pulsa em outro ritmo. E é aí que muitas estratégias falham.
O que realmente move o voto ainda são preocupações concretas: segurança nas ruas, falta de médicos nos postos, escolas sucateadas, desemprego alto, salário baixo, transporte lotado. A IA pode ajudar a mapear tudo isso, mas não resolve sozinha.
A tecnologia deve servir como bússola, mas quem caminha é o candidato. E ele precisa fazer isso com empatia e compromisso. A IA mostra o problema. A política precisa apontar o caminho.
Em meio a filtros, roteiros ensaiados e respostas automáticas, o que mais se destaca é a autenticidade.
Humanizar a campanha não é só sorrir nas fotos. É mostrar quem você é de verdade. Suas ideias, seus valores, suas falhas. O eleitor quer alguém com quem possa se identificar. Alguém que ele possa confiar.
A IA pode ajudar a organizar essa comunicação, mas não gera carisma, nem constrói confiança. Isso vem da coerência entre discurso e prática, da escuta ativa e da disposição para o diálogo.
Redes sociais não são mais monólogos. São conversas abertas. A campanha que escuta mais, conecta mais. E quem conecta, mobiliza.
No fim, o melhor uso da tecnologia é quando ela traz as pessoas para perto, seja para uma conversa online ou um abraço em uma caminhada. Porque é nesse olho no olho que o voto nasce.
As eleições de 2026 serão, sim, as mais tecnológicas da história. Ignorar a IA é como recusar um megafone no meio da praça. Mas confiar apenas nela é como falar sozinho com o volume no máximo.
O grande segredo será usar a tecnologia como ferramenta, e não como substituta do relacionamento humano. A IA pode organizar, segmentar, prever. Mas só o ser humano consegue emocionar, inspirar, conquistar.
O voto não é programável. Ele é conquistado. Com escuta, com proposta, com verdade.
E no fim, quando tudo estiver rodando, testado e otimizado, a pergunta mais importante permanece: você conseguiu tocar o coração do eleitor? Porque o algoritmo não vota. Quem vota é quem sente.
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