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Outro Bolsonaro na disputa presidencial, ajuda ou atrapalha os planos de quem?
03/01/2026 / 11:13
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A recente declaração do ex-presidente Jair Bolsonaro, contida na “Carta aos Brasileiros”, na qual indica seu filho, Flávio Bolsonaro, como pré-candidato à Presidência da República em 2026, causou um terremoto no cenário político nacional. A carta foi divulgada pelo próprio Flávio, antes da cirurgia a que o pai foi submetido.

Cabe, então, fazer uma análise detalha das estratégias e das expectativas dos diferentes espectros políticos, diante dessa movimentação.

A Estratégia Bolsonarista:                                           Continuidade, Legado e Controle (Direita)

Carta Bolsonaro Antes da Cirurgia, um documento-chave para entender as motivações por trás dessa decisão, revela uma narrativa de sacrifício e missão. Jair Bolsonaro afirma ter enfrentado “duras batalhas, pagando um preço alto na minha saúde e em minha família para defender aquilo que acredito ser o melhor para o nosso Brasil.” Ele contextualiza a indicação de Flávio como uma resposta a um “cenário de injustiça” e a um “compromisso de não permitir que a vontade popular seja silenciada”.

Do ponto de vista do marketing político, a estratégia de Jair Bolsonaro é multifacetada:

1. Transferência de Capital Político e Legado:Ao afirmar que “entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para a missão de resgatar o nosso Brasil”, Bolsonaro tenta ceder seu capital político e a imagem de “salvador da pátria” a Flávio. A ideia é a de que Flávio represente “a continuidade do caminho da prosperidade que iniciei muito antes de ser presidente.” Isso busca preservar a “representação daqueles que confiaram em mim”, mantendo a chama do bolsonarismo acesa.

2. Manutenção da Base Eleitoral: A indicação de um membro da família visa aglutinar e manter coesa a base mais fiel do bolsonarismo, aquela que “honra a Deus, a pátria, a família e a liberdade,” como mencionado na carta. É uma tentativa de evitar a dispersão do eleitorado de direita e garantir que o sobrenome Bolsonaro continue sendo um fator central na política.

3. Controle da Agenda da Direita: Ao lançar Flávio, Jair Bolsonaro reafirma sua liderança sobre o movimento conservador, mesmo diante de especulações sobre outros nomes. Essa jogada, no entanto, é vista como arriscada. Como apontado pelo Le Monde, a escolha foi inesperada e gerou divisões, especialmente ao preterir figuras como Tarcísio de Freitas ou Michelle Bolsonaro. A Veja notou que a candidatura de Flávio “espalha incertezas entre aliados” e que a estratégia expõe o desafio de reorganizar o xadrez eleitoral de 2026.

Para quem ajuda? Ajuda a família Bolsonaro a manter a proeminência e o controle sobre o bolsonarismo. Para quem atrapalha? Atrapalha outros potenciais candidatos da direita que poderiam herdar o espólio político de Bolsonaro de forma mais orgânica ou com maior aceitação, gerando divisões internas.

A Reação e a Análise Lulista:                                                Uma Oportunidade Estratégica (Esquerda)

A cúpula lulista e a esquerda, de modo geral, têm recebido a notícia da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro com uma mistura de surpresa pelo momento e otimismo estratégico.

1. A Surpresa e o Cálculo Político: Embora o timing do anúncio tenha sido “inesperado”, o movimento era “antecipado devido à necessidade de Bolsonaro manter seu grupo fortalecido”, conforme notado por Carlos Zarattini (PT-SP), em matéria da Veja. Para o PT, a escolha de Flávio não representa uma ameaça intransponível, mas sim um desdobramento estratégico.

2. Narrativa de Moderação vs. Radicalização: A equipe de Lula vê na candidatura de Flávio uma oportunidade ímpar para reforçar a imagem de Lula como uma figura de moderação e estabilidade. A polarização com um “bolsonarismo raiz”, representado por Flávio, permite que Lula se posicione como o contraponto sensato a uma agenda que pode ser percebida como radical e divisiva.

3. Potencial de Rejeição e Consolidação da Base: Analistas do PT acreditam que Flávio Bolsonaro, devido a seu histórico e à forte associação com a imagem mais controversa do bolsonarismo, pode enfrentar uma rejeição eleitoral ainda maior do que a do próprio Jair Bolsonaro, em um cenário de segundo turno. Pesquisas, como a do Datafolha citada pela Veja, já indicam que “Lula lidera cenários de primeiro e segundo turnos para 2026”, e que a candidatura de Flávio “deixa Lula perto da vitória no 1º turno”. Isso permite aos lulistas consolidar sua base, mobilizar o eleitorado contra a “radicalização” e atrair eleitores de centro que buscam uma alternativa mais previsível.

Para quem ajuda? Ajuda diretamente os planos de reeleição de Lula, pois aposta em um cenário de polarização favorável, onde o candidato de oposição possui alta rejeição. Para quem atrapalha?Atrapalha a possibilidade de a direita apresentar um nome mais moderado e com maior capacidade de atrair o eleitorado de centro, que poderia diluir o apoio a Lula.

O Centro e a Busca por Espaço:      Entre a Oportunidade e o Encurralamento

Para os parlamentares tradicionais e o centro político, aqueles que há muito tempo navegam nas águas do poder, independentemente do governo vigente, a entrada de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial pode ter efeitos ambivalentes.

1. Abertura para uma “Terceira Via”? Um cenário de alta polarização entre um candidato com alta rejeição (Flávio) e um Lula já consolidado pode, paradoxalmente, abrir um pequeno vácuo para uma “terceira via” mais palatável. Se a sociedade se cansar da radicalização dos extremos, um candidato centrista, com perfil de gestor ou conciliador, poderia emergir como alternativa. O desafio é encontrar um nome que consiga se diferenciar, de forma clara, e conquistar a confiança de um eleitorado dividido.

2. Encurralamento e Escolha de Lado: No entanto, a polarização também pode encurralar o centro. Sem um nome forte, esses parlamentares e partidos podem ser forçados a se alinhar com um dos polos, seja por pragmatismo político ou por sobrevivência eleitoral. Alianças estratégicas com Lula ou, em um movimento mais improvável, com um Flávio Bolsonaro que consiga moderar sua imagem, seriam o caminho.

3. Negociação e Poder de Barganha: A entrada de Flávio também pode aumentar o poder de barganha do centro. Ambos os lados (Lulistas e Bolsonaristas) precisarão de apoio para formar coalizões, e os partidos de centro, com suas bases consolidadas e estruturas partidárias, podem se tornar peças fundamentais nessas negociações.

Para quem ajuda? Ajuda o centro, se houver uma saturação da polarização e um nome forte surgir para a “terceira via”. Também ajuda a aumentar o poder de barganha em negociações por alianças. Para quem atrapalha? Atrapalha se o centro não conseguir se posicionar de forma clara e for forçado a se diluir em um dos polos, perdendo sua identidade e relevância.

Conclusão: O Xadrez Reinventado

A indicação de Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República em 2026 é, sem dúvida, uma jogada audaciosa de Jair Bolsonaro para manter o legado familiar e o controle do movimento.

• Para os Bolsonaristas, é um esforço para a continuidade, mas com o risco de fragmentação interna.

• Para os Lulistas, é uma oportunidade estratégica para consolidar a reeleição, explorando a alta rejeição do adversário e reforçando a própria narrativa de estabilidade.

• Para o Centro, é um cenário de desafio e oportunidade, que pode tanto abrir espaço para novas lideranças quanto forçar alinhamentos desconfortáveis.

No tabuleiro do marketing político brasileiro, Flávio Bolsonaro entra na partida e, ao que tudo indica, sua presença ajuda os planos da esquerda e cria desafios complexos para a própria direita, enquanto o centro observa, cauteloso, as peças se moverem. O jogo de 2026, com “outro Bolsonaro” em campo, promete ser tão imprevisível quanto estratégico.

Edson Panes de Oliveira Filho é Advogado e Estrategista Politico, Especialista em Direito Eleitoral, com MBA em Direito Empresarial, MBA em Gestão de Pessoas e MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político, proprietário da CRIA Marketing Digital e Politico e cofundador do Alcateia Política.