
Por Michel Lenz
Pesquisas eleitorais e análises de cenário são ferramentas do jogo político. Mas a maioria dos políticos (em mandato ou pré-candidatos) comete erros graves na leitura desses dados. Uns superestimam números favoráveis, outros entram em pânico com oscilações normais, e quase todos caem na armadilha de ouvir apenas o que confirma suas crenças.
Este texto apresenta critérios práticos para interpretar pesquisas e percepção pública de forma estratégica, sem “autoengano” ou “autoilusão”.
Uma pesquisa (séria) captura um momento, uma foto do cenário atual, não determina resultado. Números favoráveis não garantem vitória e números ruins não significam derrota.
O que importa de verdade: tendência. Você está subindo, caindo ou estagnado? Uma sequência de pesquisas mostrando crescimento constante vale mais do que uma pesquisa isolada com número alto. E uma queda consistente exige correção de rota, não negação.
Erro comum: políticos que divulgam apenas pesquisas favoráveis e ignoram as desfavoráveis. Se você usa pesquisa apenas para postar nas redes sociais ou em grupos de WhatsApp, você não está analisando cenário, pode estar alimentando vaidade. Isso funciona para militância, mas engana a si mesmo. Sua equipe precisa trabalhar com dados reais, não com versões editadas da realidade.
Intenção de voto mostra onde você está. Rejeição mostra até onde você pode chegar.
Um político com 40% de rejeição dificilmente ultrapassa 35-40% de votos, independentemente de estrutura, dinheiro ou tempo de TV. Há uma parcela do eleitorado que não vota nele em hipótese alguma.
Implicação estratégica: antes de pensar em crescer, entenda se há espaço para crescer. Se sua rejeição é alta, o trabalho prioritário não é convencer indecisos, é reduzir a resistência e para isso as estratégias são diferentes.
Em segundo turno, rejeição é ainda mais decisiva. O voto se transforma em “voto contra”. O candidato com menor rejeição entre os dois frequentemente vence, mesmo que tenha partido de trás.
Se você está em mandato, sua avaliação de governo é ativo ou passivo eleitoral. Mas não olhe só para aprovação ou reprovação, olhe para o gap, ou seja o “saldo”.
Um político com 35% de ótimo/bom e 30% de ruim/péssimo está em situação muito diferente de outro com 30% de ótimo/bom e 50% de ruim/péssimo. O gap indica capacidade de absorver desgaste. Governos com saldo muito negativo têm dificuldade de recuperação porque a percepção negativa já está cristalizada. O primeiro aguenta campanha negativa, o segundo pode derreter com um escândalo.
Uso estratégico: o saldo indica sua margem de manobra. Saldo positivo permite ousar. Saldo negativo exige cautela e reconstrução de imagem antes de qualquer movimento eleitoral.
Todo político tem ao redor pessoas que dizem o que ele quer ouvir. Isso é confortável, mas pode ser muito perigoso.
Sua equipe está analisando o cenário com base em dados ou em desejo? Os “analistas” que você consulta têm histórico de acerto ou só confirmam sua visão de mundo? As informações que chegam até você passaram por filtros que removeram as más notícias?
Cuidado: quando foi a última vez que um assessor trouxe uma análise que contrariava sua expectativa? Se não lembra, você provavelmente está cercado de eco, não de estratégia.
Políticos que vencem consistentemente são os que mantêm ao menos uma pessoa na equipe com autorização para dizer verdades incômodas, e mais importante: que seja efetivamente ouvida.
O erro mais perigoso para um político: acreditar que seu círculo de apoiadores representa todo o seu eleitorado. Este é talvez o ponto mais ignorado por políticos e suas equipes, inclusive por profissionais experientes.
A percepção sobre um governo ou candidato muda drasticamente conforme o ponto de observação. Classe social, região, faixa etária, inserção no mercado de trabalho, tudo isso altera completamente a leitura do cenário.
Um mesmo governo pode ser simultaneamente bem avaliado por beneficiários de programas sociais e mal avaliado pela classe média urbana. Um candidato pode ser visto como “renovação” em uma capital e como “desconhecido sem experiência” no interior. A mesma fala pode gerar entusiasmo na base e rejeição no eleitor médio.
E aqui entra outro fator agravante: a maioria do eleitorado sequer está prestando atenção. Entre 60% e 70% dos eleitores não são politizados. Não acompanham seu mandato, não sabem suas votações, não viram seu pronunciamento. Estão preocupados em trabalhar, pagar contas, resolver a vida.
Esse eleitor decide nas últimas semanas de campanha, com base em percepções gerais: “parece confiável”, “resolve”, “é do meu lado”, “o outro é pior”. Sua decisão é mais emocional, reputacional e de conjuntura do cenário político com a sua realidade.
O problema: políticos e suas equipes que costumam viver em bolhas, rodeados de apoiadores, consumindo mídia segmentada, com feeds de redes sociais algoritmicamente filtrados para mostrar o que confirma suas crenças. Esse ambiente cria a ilusão de consensos que simplesmente não existem no eleitorado real.
Implicação estratégica: sua comunicação de pré-campanha ou campanha precisa funcionar para quem não te conhece e não está prestando atenção. Discurso para militância não converte eleitor médio. São linguagens diferentes, canais diferentes, argumentos diferentes.
Pesquisas e análises de cenário são insumos para decisão, não validação de ego. O político que lê esses dados com frieza estratégica (sem negar os ruins nem superestimar os bons) consegue corrigir a rota a tempo, identificar oportunidades reais e evitar armadilhas que derrubam campanhas.
Seu maior adversário pode não ser o candidato do outro lado, mas sim a sua própria capacidade de se enganar.
