Se o candidato de Lula fosse uma mulher, o Senado teria barrado?
01/05/2026 / 09:33
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O presidente Lula (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O governo sofreu uma derrota histórica ao não conseguir aprovar o nome de Messias para o Supremo Tribunal Federal. Mas reduzir o episódio a um fracasso pessoal de Lula é simplificar demais um processo político muito mais complexo — e cheio de sinais acumulados há meses.

Houve erro de articulação? Sim. Houve subestimação do Senado? Também. Mas o principal problema estava no próprio candidato.

Messias sempre foi visto como um homem sério, disciplinado, correto no trato pessoal. Ninguém lhe atribui escândalos ou comportamento incompatível com o cargo. O problema é outro: ele era um candidato politicamente inadequado para este momento do país e para o ambiente específico do Senado.

Seu perfil excessivamente identitário acabou funcionando contra ele. Ser “terrivelmente evangélico” talvez rendesse dividendos em outro contexto político, mas hoje produz resistência automática em setores importantes da elite política e intelectual. As mulheres progressistas não gostam dele. Parte significativa da esquerda também não. E muitos senadores, embora não admitam publicamente, enxergavam sua indicação como um aceno ideológico excessivo num tribunal que já vive sob tensão política permanente.

Messias nunca conseguiu construir pontes fora de sua própria bolha.

Não bebe. Não frequenta ambientes políticos tradicionais. Circula quase exclusivamente entre aliados religiosos e jurídicos. Tem poucos amigos fora desse universo. Em Brasília, onde relações pessoais contam tanto quanto currículos, isso pesa — e pesa muito.

A pergunta inevitável é: como Lula não percebeu isso?

Lula sempre foi reconhecido exatamente pela capacidade de sentir o ambiente político antes dos outros. Desta vez, falhou. Apostou que sua força pessoal, somada ao peso institucional da Presidência, seria suficiente para dobrar resistências. Não foi.

E existe ainda um terceiro elemento, talvez o mais relevante no longo prazo: o Senado aproveitou a votação para mandar um recado ao Supremo.

Hoje, muitos senadores consideram que ministros do STF passaram a ocupar um espaço político que antes pertencia ao Parlamento. O Supremo legisla, arbitra crises, interfere em pautas do Congresso, participa do debate público diariamente e, na percepção crescente dentro do Senado, faz mais política do que os próprios políticos.

A derrota de Messias virou também um voto de afirmação institucional.

Foi menos sobre currículo e mais sobre poder.

O Senado quis demonstrar que ainda possui capacidade de impor limites — tanto ao Planalto quanto ao Supremo. E escolheu exatamente uma indicação considerada vulnerável politicamente para fazê-lo.

E aí surge a pergunta inevitável: se o candidato de Lula fosse uma mulher, o Senado teria tido coragem de barrar?

Provavelmente não.

O custo político seria infinitamente maior. A rejeição seria interpretada como afronta à representatividade feminina num dos espaços mais fechados da República. O desgaste público seria brutal. Barrar Messias era administrável. Barrar uma mulher indicada ao Supremo seria outra história — inclusive internacionalmente.

No fim, a derrota não pertence apenas a Lula.

Pertence a um governo que perdeu parte da capacidade de leitura política, a um candidato que jamais conseguiu ultrapassar os limites de sua própria tribo e a um Senado decidido a recuperar protagonismo diante de um Supremo cada vez mais expansivo.

Brasília raramente produz derrotas isoladas.

Quase sempre elas são coletivas — e cheias de recados ocultos.