Consumo excessivo de álcool aumenta risco de danos ao fígado
02/04/2026 / 14:37
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Foto: Freepik

Beber muito álcool de uma só vez pode triplicar o risco de danos ao fígado em cerca de um terço da população, segundo um estudo recente da Universidade do Sul da Califórnia. A pesquisa revelou que episódios pontuais de consumo elevado, mesmo entre pessoas que bebem moderadamente, estão associados a um aumento significativo das chances de desenvolvimento de lesões hepáticas.

O estudo destaca que a forma como o álcool é consumido pode ser mais determinante do que a quantidade total ingerida ao longo do tempo. Observa-se que 1 em cada 3 adultos apresenta doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (DHEM), condição frequentemente ligada à obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e colesterol elevado. Neste grupo, o consumo concentrado de álcool em um único dia pode elevar em até três vezes o risco de fibrose hepática avançada, etapa grave que envolve cicatrização do fígado.

A pesquisa, publicada na revista “Gastroenterologia e Hepatologia Clínica”, analisou dados de 8.006 adultos dos Estados Unidos entre 2017 e 2023. Usaram a elastografia hepática para medir a elasticidade do fígado, identificando que 4.571 participantes tinham DHEM. Entre eles, 15,9% praticavam consumo episódico excessivo de álcool — definido como quatro ou mais doses em um dia para mulheres e cinco ou mais para homens, ao menos uma vez por mês —, o que correlacionou com maior risco de fibrose significativa e avançada.

Os autores ressaltam que distribuir o consumo de bebidas alcoólicas ao longo da semana é menos prejudicial do que concentrar grandes quantidades em um único momento. Adultos mais jovens e homens relataram maior frequência deste padrão. O hepatologista Raymundo Paraná, da Universidade Federal da Bahia, afirma que “não há nenhum dado científico que possa garantir uma dose mínima segura de álcool para quem já tem doença hepática”. Segundo ele, o álcool aumenta a inflamação e favorece o acúmulo de cicatrizes no fígado, podendo levar à cirrose.

O estudo também aponta que a doença hepática relacionada ao álcool mais que dobrou nas últimas duas décadas, potencialmente pela combinação do aumento do consumo durante a pandemia e o crescimento das condições metabólicas. O padrão de ingestão alcoólica episódica é comum e precisa ser mais considerado por profissionais e pela população.

Além disso, a pesquisa reforça a importância da abstinência completa para a recuperação do fígado. Outra investigação internacional acompanhou 633 pacientes com cirrose alcoólica e apontou que a abstinência total e mantida pode reverter danos e complicações em até um terço dos casos, desafiando a visão tradicional de irreversibilidade da doença avançada.

Os especialistas alertam ainda para o risco da síndrome de abstinência alcoólica em pessoas dependentes, recomendando acompanhamento médico adequado para cessação do consumo.

O estudo amplia a compreensão dos riscos do consumo exagerado ocasional de álcool e destaca a necessidade de repensar não apenas quanto, mas como o álcool é consumido para a prevenção de doenças hepáticas.