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Fechada há 9 anos pela Prefeitura de CG, Cozinha do Jeremias é reativada pela comunidade e vira documentário internacional
11/11/2022 / 21:30
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Uma longa fila, com mais de 800 pessoas esperando por comida, se formava já no início da noite. Eram os primeiros meses de isolamento da pandemia de covid-19, sem Auxílio Emergencial ou perspectiva de trabalho, no bairro do Jeremias, em Campina Grande.

Do lado de fora, todos aguardavam o alimento preparado por mulheres voluntárias da comunidade e que seriam doados a quem não podia comprar. As refeições eram preparadas na cozinha comunitária, abandonada há nove anos pela prefeitura do município e ocupada pelos trabalhadores.

Fila diante da Cozinha Solidária do Jeremias | Foto: divulgação Mátria Silva

A Cozinha Solidária do Jeremias, como foi rebatizada após a ocupação, garantiu que centenas de campinenses não passassem fome em um dos períodos mais difíceis do isolamento. Hoje, o ato de generosidade coletiva que reuniu moradores do bairro, movimentos sociais e sindicais será retratado no festival internacional de cinema Black Cat Award International Film, sediado na Cidade de La Paz, na Bolívia, que acontecerá entre os dias 11 e 15 de novembro.

“Primeiro, elas começaram ocupando a cozinha [as mulheres da comunidade], depois, elas foram atrás dos utensílios, porque não tinha absolutamente nada (…) mais pessoas que recebiam o alimento se ofereciam para trabalhar, isso em plena pandemia”Mauriene Freitas, diretora do documentário.

Documentário Mátria Silva

As filmagens na Cozinha Solidária do Jeremias começaram de forma espontânea, “no ímpeto”, como explica a professora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e diretora do filme Mátria Silva, Mauriene Freitas. A Associação dos Docentes (Aduepb), da qual era presidente à época, foi uma das entidades que auxiliaram financeiramente na compra dos alimentos para doação. 

Durante uma visita à ocupação, os representantes da Aduepb, acompanhados de uma cinegrafista que fazia um trabalho institucional sem ligação com a cozinha, foram filmados despretensiosamente. “A equipe veio atrás, filmando, e eu não sabia que estava sendo filmada. Ela pegou a coisa do jeito que estava acontecendo”, contou a diretora Mauriene Freitas. Ao ver, dias depois, o material registrado, teve a ideia de transformá-lo em documentário.

Trabalho em conjunto

As cerca de 800 refeições distribuídas diariamente também foram viabilizadas graças às doações de alimentos produzidos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Ao todo, foram cerca de 200 toneladas de vegetais orgânicos produzidos pelo movimento e entregues à Cozinha Solidária.

Voluntárias da Cozinha Solidária do Jeremias | Foto: divulgação Mátria Silva

Iara Rodrigues, coordenadora das voluntárias que integram a cozinha, explica que todo o trabalho só foi possível graças aos sindicatos, movimentos sociais, a ajuda da comunidade e das 25 mulheres que trabalham sem retorno financeiro.

É a própria comunidade em si; é o povo cuidando do povo”.

Iara Rodrigues, coordenadora das voluntárias

O trabalho voluntário também contou com o apoio do Sintab, Sintep, Levante Popular da Juventude, Adufcg e Comitê contra a Fome de Campina Grande. 

Cozinha do Jeremias no festival internacional de cinema

O documentário Mátria Silva tem 38 minutos e mostra a organização da Cozinha Solidária do Jeremias desde as primeiras concepções de utilização do espaço. O processo de envolvimento da comunidade, a produção e a distribuição dos alimentos, assim como o protagonismo feminino, estão registrados. 

Filmagem do documentário Mátria Silva | Foto: divulgação.

“Mátria é a nação de mulheres que nós queremos, aquela que alimenta, aquela que nutre aquela que não abandona seus filhos. Foi aquilo que aquelas mulheres fizeram na cozinha. O Silva porque é o sobrenome mais comum. Foram as pessoas comuns que estavam fazendo aquela transformação”, explicou a diretora sobre o título do documentário.

Mátria Silva tem direção e montagem da professora Mauriene Freitas, produção de Fred Oliveira e Helber Tavares e direção de fotografia e câmera de Érica Rocha. O Black Cat Award International Film é um festival online que tem como centralidade as questões relacionadas a cinema, direitos humanos e crianças.