IA cria novos tratamentos para doenças incuráveis
03/04/2026 / 14:00
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Fotos: GETTY IMAGES

A inteligência artificial está revolucionando o desenvolvimento de medicamentos, criando novos tratamentos para doenças antes consideradas incuráveis, como Parkinson e infecções causadas por bactérias resistentes a antibióticos. Pesquisadores utilizam algoritmos avançados para identificar compostos químicos eficazes em um ritmo muito mais rápido que os métodos tradicionais.

O aumento da resistência a antibióticos é um problema crescente de saúde pública. Atualmente, cerca de 1,1 milhão de pessoas morrem anualmente por infecções tratáveis, e essa estimativa pode chegar a 8 milhões até 2050 se novas soluções não forem encontradas. O desenvolvimento convencional de antibióticos é lento e caro, com poucas descobertas significativas nos últimos anos. Entre 2017 e 2022, somente 12 novos antibióticos foram aprovados, a maioria semelhante aos já existentes, aos quais as bactérias já desenvolveram resistência.

Pesquisadores como o professor James Collins, do MIT, têm usado a IA para examinar milhões de estruturas químicas, encontrando compostos capazes de combater bactérias extremamente resistentes, como Neisseria gonorrhoeae e Staphylococcus aureus resistente à meticilina (SARM). Usando técnicas de IA generativa, a equipe projetou 36 milhões de compostos, sintetizando 24 em laboratório, dos quais dois mostraram alta eficácia contra essas bactérias.

Aplicações em doenças neurodegenerativas

A inteligência artificial também tem sido empregada para buscar tratamentos para doenças neurodegenerativas, com destaque para o Parkinson. Embora seja uma doença conhecida desde 1871, ainda não há medicamentos que retardem sua progressão. Mais de 10 milhões de pessoas vivem com Parkinson em todo o mundo, incluindo cerca de 200 mil no Brasil.

Pesquisas recentes no Reino Unido utilizaram aprendizado de máquina para buscar compostos que atuem sobre os corpos de Lewy, agregados proteicos associados à neurodegeneração no Parkinson. O uso da IA permite analisar bilhões de moléculas em poucos dias, reduzindo significativamente o tempo e o custo da pesquisa.

Redirecionamento de medicamentos

Outra vertente é o uso da IA para encontrar novos usos para medicamentos já aprovados. O médico David Fajgenbaum, dos EUA, salvou sua vida com um medicamento utilizado normalmente para impedir rejeição em transplantes. Desde então, criou a organização Every Cure, que utiliza aprendizado de máquina para encontrar possíveis novos tratamentos para doenças raras, muitas vezes negligenciadas pela indústria farmacêutica.

Pesquisas na Universidade McGill, no Canadá, utilizam IA para modelar a progressão da fibrose pulmonar idiopática (FPI), uma doença rara e grave. Os estudos identificaram oito possíveis tratamentos, incluindo remédio para hipertensão, que já têm perfil seguro e custo baixo.

Empresas como Insilico Medicine e outras estão desenvolvendo drogas baseadas em IA para doenças complexas. Apesar das limitações, como a indisponibilidade de alguns dados farmacológicos, a inteligência artificial tem potencial para transformar principalmente as fases iniciais da descoberta de medicamentos.

Segundo especialistas, a IA deve ser um componente central no desenvolvimento farmacêutico nos próximos cinco a dez anos, acelerando a criação de novas terapias e ampliando as opções para pacientes que hoje não têm tratamento eficaz.