
“De perto, ninguém é normal.” A frase de Caetano Veloso em “Vaca Profana” é recuperada por Mariano Horenstein em seu livro “Conversa Infinita”, publicado no Brasil pela Quina Editora e traduzido por Julián Fuks. O psicanalista, que entrevistou dezenas de personalidades sobre psicanálise, diz que há liberdade em encontrar-se com a singularidade das pessoas, fora das luzes e dos flashes.
O projeto surge da noção do argentino de que a psicanálise é um campo de fronteira com outros discursos. “A maioria dos psicanalistas que fizeram alguma diferença tem tido uma interlocução com outras disciplinas. Muitas descobertas surgem nessa zona de frente com o estrangeiro.”
Para ratificar sua visão, buscou escritores, artistas plásticos, escultores, filósofos, cineastas, dramaturgos, fotógrafos e arquitetos. Dentre esses, alguns nomes conhecidos como Marina Abramovic, Anish Kapoor, Julia Kristeva e o próprio Caetano; outros, não tão conhecidos, mas ainda admirados pelo psicanalista.
Apesar da variedade de saberes, a maioria das figuras eram artistas. “A psicanálise é como uma forma de arte que passa inadvertida como tal, não é?”, indaga.Segundo Horenstein, há quem pense na psicanálise como forma de arte, enquanto outros, como ciência. Para ele, a psicanálise e a arte estão ligadas, mesmo que a teoria originada por Freud tenha um rigor indiscutível em sua práxis.
O britânico Anish Kapoor, em sua conversa com Horenstein, disse que o processo psicanalítico se assemelha muito ao processo que atravessa como artista. Considerado um dos artistas plásticos mais relevantes dos últimos tempos, fez análise por mais de trinta anos.
“O que você faz durante a exploração psicanalítica é procurar aquelas partes de si mesmo que não conhece ou não conhece muito bem, uma das duas“, disse, conforme trecho publicado no livro. “É exatamente o que faz um artista“, complementa.
Chegar a essas pessoas não foi uma tarefa simples. A ideia de Horenstein era que as conversas não fossem apenas “mais uma” na vastidão de entrevistas que os artistas dão em turnês de divulgação. A sua vontade era que fossem genuínas. Também decidiu não entrar em contato por meio de assessores ou de outros psicanalistas, o que tomou mais tempo para conseguir os dados, que vieram de sua rede de conhecidos e amigos.
“Se sabe que [Slavoj] Zizek tem uma relação com a psicanálise, que [Alain] Badiou tem uma relação com a psicanálise ou Nani Moretti. Sabia porque havia lido suas obras”, conta. Mas, em outros casos, descobriu por acaso, como foi com Caetano.
Horenstein almoçava com um amigo paulista e, conversando sobre seu projeto, perguntou quem poderia ser o entrevistado do Brasil. Ele não só tinha a resposta, como também era amigo de infância do cantor.
“Eu não sabia que Caetano havia se analisado. E ele havia se analisado muito. Ele até escolheu onde viver em função de se havia ou não psicanalistas na cidade. Mas eu não sabia, porque Caetano não fala sobre isso o tempo todo publicamente.”
Pela variedade de personalidades entrevistadas, muitas entrevistas se deram “entre línguas”, como chama Horenstein. Segundo o autor, ele consegue “se virar” em algumas línguas, como o português, inglês e o francês. Chamar um tradutor nunca era a melhor opção, diz, já que um terceiro interfere na intimidade da conversa. Em alguns momentos, as línguas se misturavam: ele falava em uma e ouvia em outra, como aconteceu na entrevista para esta Folha.
“É sempre melhor falar na língua materna, mas ouvir na língua materna do outro. Isso é sempre mais interessante.”
Durante a entrevista com a cineasta israelita Nurith Aviv, em Paris, ele conta que o jogo de idiomas se tornou evidente. Como o psicanalista não fala hebreu, as línguas se misturavam entre o inglês e o francês, às vezes um pouco de castelhano. Mas Aviv misturava o hebreu e, quando fazia, “o encarnava”.
“Ela falava o hebreu com o seu corpo. Por isso, muitas vezes eu estou em situações em que não acabo entendendo tudo, mas, no entanto, parece algo interessante. É uma associação livre em muitos sentidos, inclusive corporal.”
Não era seu objetivo que as entrevistas fossem como uma sessão de análise, mas algumas chegaram perto. Em outras –poucas– a conexão não foi alcançada. A maioria, segundo o argentino, se deu em um clima de intimidade, uma mistura entre entrevista e análise.
Isso aconteceu com o cantor uruguaio Jorge Drexler. Na noite anterior, o intérprete havia ganhado diversos prêmios, o que fez com que uma fila de jornalistas se formasse para entrevistá-lo.
“Começamos a conversar e, em um dado momento, ele diz algo sobre erro. E eu lhe pergunto, sem nenhuma pretensão de interpretar nada, que ele tinha usado uma palavra ‘errar’, no sentido de ‘falhar’; e eu lhe pergunto por ‘errar’ no sentido de ‘vagabundear’, do nomadismo, que tem muito a ver com a história dele. Para minha surpresa, ele se emocionou e, a partir daí, tudo mudou. Ele cancelou as entrevistas que estavam esperando e conversamos por muito mais tempo.”
O fato do entrevistador ser um psicanalista e também não se comportar como um “fã” é tido por ele como um ponto que faz com que os artistas sintam alívio em poder falar de si, sem ter que encarnar a persona famosa.
“Gostei muito de fazer as entrevistas, porque a possibilidade de conversar um par de horas com alguém a quem admiro e sem tempo e poder falar com liberdade foi um prazer.”
Com informações da Folha de São Paulo