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Na Rússia, professores sofrem punições por falar da guerra

A história da professora de Filosofia da Rússia que abriu mão da carreira para não silenciar frente à guerra

No dia 24 de fevereiro, a professora de Filosofia Maria Rakhmaninova acordou e saiu para trabalhar na Universidade Humanitária dos Sindicatos de São Petersburgo (SPbGUP) sem conferir as notícias. Enquanto caminhava até o campus, um amigo lhe telefonou e disse que horas antes a Ucrânia fora invadida.

A professora costumava ensinar disciplinas baseadas em clássicos da Filosofia, como Platão, Kant e Nietzsche, intercalando as reflexões com fatos sobre as vidas dos pensadores. Em um dia atípico, porém, o início da lição também fugiu ao padrão, e ela mencionou o início da guerra.

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— Meus alunos eram muito jovens e tinham várias perguntas, como se o mundo destruiria a Rússia se não conduzíssemos essa operação militar — disse ela ao GLOBO. — Tentei lhes explicar como vejo a situação. Acho que sou qualificada o bastante para abordar o assunto, tendo feito doutorado em Filosofia Política.

Segundo Rakhamaninova, um dos principais temas do seu curso era como conseguir perceber que as nossas próprias vidas estão imersas na História. Mais especificamente, como é possível saber quando se vive em um tempo catastrófico, quando se está, em suas palavras, “em um barco que afunda em uma tempestade”.

— Mas isso era difícil de entender antes. E, naquele momento, nós podíamos senti-lo — contou. — Eu lhes disse que não havia nada de glorioso na guerra. Que a guerra não pode trazer felicidade a ninguém, e é sempre uma catástrofe.

A primeira reação aconteceu no final daquela aula, quando ela notou um homem desconhecido no fundo do auditório. Na semana seguinte, não falou de política, mas mencionou como as sociedades muitas vezes reagem às guerras, citando um caso do século XIX. No intervalo de cinco minutos, recebeu um telefonema de um dos gestores da faculdade:

— Ele me mandou calar a boca e parar de falar de política. Ameaçou tomar uma ação imediata se eu não parasse, porque “a política não tem lugar na universidade”.

Quando saiu da sala, um telão no corredor exibia uma mensagem do reitor em referência à Ucrânia: “De acordo com minhas estimativas, faltam cerca de dez dias para a derrota completa do Estado fascista”.

Proibida de falar o que pensa, Rakhmaninova pediu demissão, interrompendo uma brilhante carreira. Aos 36 anos, ela escreveu há três sua segunda tese — obrigatória na Rússia, e que só pode ser escrita 10 anos após a primeira —, tornando-se uma das mais jovens doutoras do país em qualquer área.

Apesar de ter chegado a ganhar um módico salário equivalente a R$ 1.500 e de precisar complementar a renda atuando como faxineira, seus livros e artigos são referência na Rússia em áreas como estética, feminismo e a história do pensamento anarquista. Em paralelo à docência, também mantinha uma atividade como ativista em questões ambientais e urbanas.

Demissões e multas
O caso da professora permite vislumbrar como as janelas que permitiam arejar as ideias em universidades, centros de pesquisa independentes e escolas na Rússia vão se fechando, com o regime de Vladimir Putin ficando cada vez mais autoritário e onipresente. Multiplicam-se as histórias de professores universitários e pesquisadores cujas declarações contra a guerra motivaram denúncias, multas, demissões e até mesmo abertura de processos criminais.

Em 19 de abril, Roman Melnichenko, professor e pesquisador do Departamento de Direito Constitucional e Municipal da Universidade Estadual de Volgogrado, foi demitido por publicações no VKontakte, uma rede social russa que imita o Facebook. A justificativa do reitor para sua demissão foi suposto absenteísmo e “comportamento imoral”. O professor não sabe quais textos lhe custaram o emprego:

— Postei fotos de parentes da Ucrânia. Escrevi: “Olha, começaram a bombardear a Ucrânia, mas meus pais estão lá agora. Esta é a minha família, que tipo de Bandera [fascista ucraniano] eles são?!“ Sou advogado, sei que há controle, então escrevi tudo com muito cuidado — afirmou ao site russo Ovdinfo.

Já o filólogo Ilya Kukulin disse que ele e sua mulher Maria Maiofis, ambos professores da Faculdade de Humanidades da Escola Superior de Economia (HSE), foram obrigados a assinar cartas de demissão por se manifestarem contra a guerra no Facebook, segundo o veículo russo Nós Explicamos. A posição do casal entrou em choque direto com a do reitor, Nikita Anisimov, que assinou uma carta do Sindicato dos Reitores em apoio à “operação especial” na Ucrânia.

Após 28 anos de funcionamento, o centro de pesquisa Fundo Carnegie para a Paz Internacional, o primeiro think tank criado em Moscou após a queda da União Soviética, fechou suas portas em 18 de abril por ordem do governo. Seu diretor, o ex-coronel do Exército soviético Dmitri Trenin, praticamente parou de se manifestar publicamente desde o início da guerra. Em uma de suas últimas publicações numa rede social, ele disse que “o conservadorismo vai prevalecer e os vestígios de liberalismo e de um pensamento global serão expurgados de dentro da Rússia”.

Delações e apoios
A perseguição alcança também escolas. De acordo com a ONG Ágora, ao menos 20 professores tinham recebido multas, sido demitidos ou até detidos até o início de abril. Um dos casos mais chocantes é o do professor Gennady Tychyna, preso por dois guardas armados numa aula em 1º de março, após comentar dias antes com um segurança que “tinha orgulho de ser ucraniano”.

— Depois dessa conversa, o governo começou a me pressionar. Mas, dentro dos muros da escola, não estou do lado de ninguém. E não discuto política com estudantes — disse Tychina ao Novaya Gazeta, publicação que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 2021 e que suspendeu as atividades durante a guerra após receber várias advertências do governo.

O Globo

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