
A decisão da ONU de classificar o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade reacendeu o debate sobre racismo, desigualdades e reparação histórica. A medida foi proposta por Gana, país que teve papel central no tráfico, e recebeu o apoio de 120 nações, inclusive o Brasil, o último país americano a abolir a escravidão.
Durante a votação realizada em 25 de março de 2026, países com histórico colonialista como Portugal, Espanha, França, Alemanha e Reino Unido preferiram se abster. Apenas Estados Unidos, Israel e Argentina registraram voto contrário à resolução.
O tráfico transatlântico de escravizados ocorreu entre os séculos 16 e 19, com mais de 15 milhões de africanos forçados a atravessar o oceano em condições degradantes. Milhões não sobreviveram à viagem. A ONU destaca a dimensão dessa tragédia e o impacto duradouro nas populações africanas e descendentes, especialmente na bissetorialidade das desigualdades atuais.
Para Luana Génot, diretora executiva do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), o reconhecimento da ONU é um marco por evidenciar as consequências persistentes da escravidão na sociedade contemporânea. “A decisão convida a sociedade a parar de relativizar a questão racial e suas consequências até hoje”, afirmou. Ela ressalta que desigualdade econômica e social no Brasil e no mundo ainda refletem privilégios da população branca em detrimento de negros e indígenas.
A iniciativa gerou também críticas, principalmente sobre a classificação poder relativizar outras tragédias históricas, como o Holocausto. Especialistas que apoiam a decisão esclarecem que o reconhecimento não implica em hierarquização de sofrimentos, mas reforça a necessidade de enfrentar as injustiças e implementar políticas de reparação e punição.
A resolução da ONU enfatiza a urgência de combater desigualdades raciais, sociais e econômicas oriundas do passado escravista, reafirmando a importância do debate sobre memória, justiça e reparação para populações afetadas.
Em discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente de Gana, John Dramani Mahama, destacou a importância da votação, afirmando que o reconhecimento é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.