Origem do bacalhau na Sexta-Feira Santa no Brasil
03/04/2026 / 11:30
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Foto: ANPr/Fotos Públicas

O consumo do bacalhau surgiu como prato típico da Sexta-Feira Santa no Brasil influenciado principalmente pela colonização portuguesa. Embora seja comum em muitas famílias católicas brasileiras evitar carne vermelha durante a Quaresma, especialmente na Semana Santa, o bacalhau se tornou o principal peixe consumido neste período.

Essa prática está ligada a costumes religiosos que remontam aos primeiros cristãos, que adotaram o jejum como forma de penitência e abstinência, com foco na renúncia aos alimentos considerados prazerosos. A Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa, é marcado pelo sacrifício e pela abstinência de carne vermelha. O jejum ganhou regulamentação na Idade Média, incluindo orientações específicas da Igreja Católica sobre a não ingestão de carne nas sextas-feiras.

Contexto religioso e simbólico

O consumo de peixe em substituição à carne tem raízes na simbologia cristã, onde o peixe é representado pelo termo grego “ichthys”, que funciona como acrônimo para “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Essa associação simbólica reforçou a permissão do consumo de peixe durante o jejum. Já a proibição da carne vermelha relaciona-se a entendimentos teológicos desenvolvidos por São Tomás de Aquino no século 13, que vinculou a carne aos prazeres e pecados mundanos, especialmente a luxúria.

A definição do que seria permitido consumir como peixe varia na tradição religiosa e inclui interpretações que diferem da ciência, como exemplificado por bispos que consideram jacarés e capivaras como peixes para fins de jejum.

Bacalhau e a influência portuguesa

A escolha do bacalhau decorre de fatores históricos e pragmáticos. O bacalhau é um peixe conservado pelo processo de salga e desidratação, permitindo sua durabilidade sem refrigeração, ideal para climas quentes como o do Brasil. A tradição foi reforçada pela chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, o que popularizou o consumo do bacalhau nos empórios e na culinária local.

Não há diretriz específica da Igreja que imponha o consumo de bacalhau, mas ele se tornou parte da prática cultural e religiosa devido à influência portuguesa e à praticidade do alimento.

O historiador André Leonardo Chevitarese destaca que o bacalhau passou a ser ressignificado ao longo do tempo, integrando as observâncias religiosas da Sexta-Feira Santa no país. Segundo o teólogo Gerson Leite de Moraes, essa prática é uma manifestação histórica e tradicional da penitência católica no Brasil, mantida pela continuidade da influência da colonização e da orientação dos padres.

O consumo do bacalhau, além de estar ancorado em motivos religiosos, também reflete dinâmicas econômicas contemporâneas, com a prática comercial em torno do produto durante o período da Quaresma.

Esta reportagem foi publicada originalmente em 6 de abril de 2023.