
João Pessoa vive um desses momentos raros em que a cidade parece entender o próprio tempo. A capital paraibana entrou de vez no radar do turismo nacional — e, com isso, a orla deixou de ser apenas cenário para virar motor econômico. Entre o azul do mar e o vai e vem dos calçadões, pequenos negócios florescem, inovam e encontram no fluxo de visitantes uma chance real de crescimento.
Não é só hotel cheio. É fila no quiosque, carrinho disputado na areia, vitrine improvisada que vira referência. Quando o turismo cresce, quem sente primeiro — e mais intensamente — é o pequeno empreendedor.

Na Avenida Cabo Branco, um movimento chama atenção antes mesmo de o cliente saber exatamente o que está comprando. A fila se forma, cresce, se mantém. Ali funciona a Nevada do Val, hoje um dos fenômenos mais comentados da orla — e exemplo claro de como criatividade e persistência podem transformar uma ideia simples em sucesso nacional.
“A gente persistiu, insistiu, fez uma, duas, e continuou”, resume Fabiana Pereira do Nascimento, que toca o negócio ao lado do marido, Val. A receita nasceu sem estratégia de marketing, sem estudo de mercado. Val bateu água de coco com a própria polpa, gelo e leite condensado para consumo pessoal. Gostou. Resolveu vender.
O que era experimento virou assinatura. Hoje, a Nevada — feita à base de coco e adaptável ao gosto do cliente, com frutas, whey, açaí ou até bebida alcoólica — roda o Brasil pelas redes sociais e atrai, sobretudo, turistas. “A procura de quem vem de fora é bem maior. A cidade está muito procurada”, conta Fabiana.
A clientela confirma. Grávida, sorrindo e sem pressa apesar da espera, Clareana voltou depois de encontrar o quiosque fechado dias antes. “Vale a pena enfrentar a fila”, garante. Já a professora universitária Tatiana Santana, de São Luís (MA), descobriu a bebida pelo Instagram. “Superou minhas expectativas”, diz, enquanto guarda mais uma para a família.
A Nevada virou mais do que produto: virou experiência compartilhável, e isso explica parte do sucesso.


Entre Tambaú e Manaíra, no Largo da Gameleira, outro negócio chama atenção por um motivo diferente: reinvenção. O MILHÓ, criado por Pryscilla Arantes, transformou um dos alimentos mais tradicionais da cultura nordestina em experiência gastronômica.
Arquiteta de formação, Pryscilla trocou Goiás pelo litoral paraibano após se apaixonar por João Pessoa em uma viagem. A ideia do negócio surgiu no Réveillon de 2024, no Guarujá, entre risadas e intuição. “Falei: vamos vender milho na praia. No outro dia, sem bebida, continuei com a ideia”, lembra.
O milho do MILHÓ é servido no pote, com duas espigas debulhadas e uma combinação livre de molhos, temperos e acompanhamentos — bacon, cream cheese, farofa, alho frito. “A proposta foi gourmetizar o milho, trazer uma explosão de sabores”, explica.
O resultado foi rápido. Em pouco mais de um ano, Pryscilla já roda três carrinhos em João Pessoa e prepara a expansão da marca por licenciamento, com negociações em outras cidades do país. “Eu não escolhi João Pessoa. João Pessoa me escolheu”, diz. E a cidade respondeu.

No bairro de Tambaú, em um food park da orla, o Ponto da Brasa mostra como a tradição também se fortalece quando encontra o público certo. O carro-chefe é a jantinha: prato farto, direto, sem frescura. “Aumentou bastante a renda”, afirma André Cavalcanti, empreendedor à frente do negócio.
A jantinha vem completa — macaxeira, arroz, farofa, vinagrete e espeto — e virou sucesso entre turistas. “O turismo aqui é muito forte. Nosso público hoje é, com certeza, quem vem de fora”, destaca André. O segredo? Produto bem feito, preço honesto e leitura correta do ambiente. “A gente inova sempre, mas o produto se vende por si.”

Outro segmento aquecido pela alta temporada é o de bolos e tortas. Na orla, a Sianne Tortas sente diariamente o impacto do turismo. “Mudou completamente a renda do negócio”, afirma Sianne Vieira, que trabalha com confeitaria há 11 anos.
Os campeões de venda são o bolo Matilda, totalmente de chocolate, e o Quatro Estações — leve, refrescante, com maracujá, leite ninho, frutas e equilíbrio perfeito para o clima da cidade. “O turista aprova”, garante Sianne, que reforçou equipe e produção para atender à demanda, especialmente nos fins de semana.

Para quem visita João Pessoa pela primeira vez, o impacto vai além da paisagem. Gustavo Ferreira, estudante universitário de São Paulo, observa uma cidade ativa, esportiva e acolhedora. “Todo mundo corre, joga vôlei, vive a praia”, diz.
A família passou pela famosa fila da Nevada do Val, explorou quiosques, comprou de ambulantes e priorizou o que parecia mais autêntico. “A gente escolhe pelo sabor e pela simpatia”, resume – uma lógica que favorece diretamente o pequeno empreendedor.

Para Márcia Medeiros, presidente da Associação dos Ambulantes e Trabalhadores em Geral da Paraíba (AMEG), o momento é positivo e estruturado. “Esse período tem sido muito importante para o comércio informal”, avalia.
Com ambulantes cadastrados, cursos de qualificação e apoio institucional, o crescimento acontece com mais segurança. “O turista vem, o morador frequenta, os eventos são organizados, isso aquece o comércio”, explica. A expectativa é de que o movimento se mantenha ao longo do ano.
João Pessoa cresce, atrai, movimenta. Mas é na escala humana que esse crescimento se torna visível. Na fila que se forma, no carrinho que se desloca, no prato simples que vira memória de viagem.
Na orla, o turismo não apenas passa — ele fica, consome, recomenda. E, muitas vezes, é no pequeno negócio, feito com poucos recursos e muita estratégia, que esse novo ciclo econômico realmente começa.