
Um projeto inédito vai registrar e preservar a memória das parteiras e benzedeiras do povo Potiguara, no Litoral Norte da Paraíba. A iniciativa “Rebento: memórias, tradições e saberes das Parteiras e Benzedeiras tradicionais Potiguara da Paraíba” (2025) vai resultar na publicação de um livro e na realização de uma exposição fotográfica, formando um acervo permanente sobre o trabalho dessas mulheres na cidade de Baía da Traição.
O projeto reúne relatos, imagens e registros do cotidiano de 16 parteiras e aprendizes ligadas à Associação das Parteiras Indígenas Potiguara da Paraíba. A proposta é documentar práticas de cuidado, rituais tradicionais e experiências que, até hoje, foram transmitidas principalmente pela oralidade.
Patrocinada pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), por meio do Governo Federal e da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), a iniciativa busca enfrentar um risco concreto: o apagamento dessas histórias. Muitas das parteiras são idosas e nunca tiveram suas trajetórias registradas de forma sistemática.

A idealizadora do projeto, a liderança indígena Cida Potiguara — enfermeira, parteira e coordenadora da Associação — explica que a proposta nasceu da preocupação com a continuidade desse saber ancestral. “É uma honra estar neste projeto. Fazer o registro das vivências com a nossa oralidade e fotografias nos dá segurança de que teremos nossa história garantida para a futura geração. É muito rico”, afirma.
Além do livro, que será distribuído gratuitamente nas escolas das aldeias de Baía da Traição, a exposição fotográfica ficará em cartaz na sede da Associação das Parteiras, na Aldeia Forte. Ao todo, serão cerca de 20 obras, reunindo retratos e cenas do cotidiano das mulheres.

Para a enfermeira e aprendiz de parteira Kauanny Oliveira, integrante da equipe, o conhecimento transmitido pelas mais velhas é insubstituível. “As parteiras trazem consigo o conhecimento do chão da aldeia. Não tem uma sala de aula melhor do que elas. É um saber que vem de muito tempo, de dentro. É ancestral”, destaca.
A fotógrafa Marina Oliveira, proponente e realizadora do projeto, ressalta que a experiência foi marcada pela resistência cultural. “O aprendizado mais significativo para mim foi perceber a linha que costura o tempo e a memória: a resistência. É nela que mora o desejo de manter viva uma cultura, seus saberes e memórias”, diz.
Já a produtora cultural Carol Marini enfatiza a força coletiva das mulheres envolvidas. “Em uma sociedade que exalta conquistas individuais, foi um privilégio aprender que não existe potência maior do que a que nasce do encontro entre mulheres que caminham juntas”, afirma.
Uma das entrevistadas, a parteira tradicional Inonata, resume o sentimento compartilhado pelo grupo: “Para nós, como parteiras, foi um momento único”.
Com lançamento previsto para 21 de março de 2025, “Rebento” amplia o debate sobre saúde indígena, patrimônio cultural e o reconhecimento das mulheres como guardiãs de práticas tradicionais de cuidado. Ao transformar oralidade em registro permanente, o projeto fortalece a transmissão intergeracional e garante que os saberes das parteiras Potiguara permaneçam vivos para as próximas gerações.

