Sono fica mais superficial com o envelhecimento e afeta saúde
31/03/2026 / 09:00
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Foto: Kinga Howard/Unsplash

O sono fica mais superficial à medida que envelhecemos, segundo estudos científicos. Embora a crença comum seja de que os idosos precisam de menos horas de descanso, a pesquisa indica que a necessidade de sono profundo permanece, mas a capacidade de alcançá-lo diminui com o tempo. O cérebro envelhecido apresenta dificuldades para manter um sono contínuo e profundo, resultando em episódios de sono leve e fragmentado.

Alterações no cérebro e no relógio biológico

O envelhecimento provoca a perda progressiva de neurônios que regulam o ciclo sono-vigília. Este sistema funciona como um interruptor firme no cérebro jovem, alternando entre estar acordado e dormir. Em pessoas mais velhas, esse sistema enfraquece, facilitando a transição entre os estados e dificultando a manutenção do sono profundo. Além disso, o núcleo supraquiasmático, responsável por coordenar os ritmos circadianos, envelhece, o que antecipa os horários de sono e despertar, faz o sono noturno ser menos consolidado e aumenta a sonolência diurna.

Outra modificação envolve a resposta do cérebro à adenosina, substância que promove a pressão do sono acumulada durante o dia. Com a idade, a receptividade a esse sinal diminui, dificultando ainda mais o início e a manutenção do sono profundo, fase fundamental para a recuperação cerebral. Essa fase do sono está associada às regiões frontais do cérebro, que sofrem perda de espessura e conexões ao longo do envelhecimento, reduzindo a intensidade e frequência das ondas cerebrais lentas características do sono profundo.

Consequências para a memória e o funcionamento cerebral

Com o avanço da idade, os sinais cerebrais emitidos durante o sono que auxiliam na consolidação da memória se reduzem, prejudicando processos cognitivos como aprendizagem e retenção de informações, mesmo em idosos saudáveis. Além disso, as conexões entre diferentes regiões cerebrais para a sincronização do sono também se enfraquecem, resultando num descanso menos reparador e mais fragmentado.

Fatores externos e outras influências

Além das alterações biológicas, aspectos do estilo de vida influenciam o sono dos idosos. A perda de rotinas diárias regulares, menor exposição à luz natural e a presença de doenças crônicas, como problemas cardiovasculares, respiratórios e distúrbios do humor, contribuem para a fragmentação do sono. Distúrbios comuns nessa faixa etária, como insônia e apneia do sono, também impactam negativamente a qualidade do descanso. O uso frequente de medicamentos, incluindo ansiolíticos, antidepressivos e betabloqueadores, pode alterar a arquitetura do sono, intensificando os efeitos do envelhecimento cerebral.

Distinção entre envelhecimento normal e mudanças preocupantes

Embora o sono mais leve seja parte do envelhecimento fisiológico normal, variações severas e progressivas podem indicar distúrbios subjacentes. Fragmentação acentuada, múltiplos despertares prolongados e sensação constante de sono não reparador são sinais de alerta. A sonolência diurna excessiva, especialmente quando compromete atividades diárias, também sugere perda da função restauradora do sono.

Alterações cognitivas sutis combinadas com distúrbios do sono podem representar processos neurodegenerativos iniciais. A redução quase completa do sono profundo, diminuição do sono REM e inversão do ritmo sono-vigília são mudanças que fogem do padrão esperado no envelhecimento saudável. Demandas crescentes por hipnóticos ou perda da eficácia desses tratamentos também merecem atenção clínica.

Considerações finais

Esses sinais devem ser avaliados cuidadosamente, pois ainda não existem biomarcadores definitivos para distinguir mudanças normais do sono associadas à idade de manifestações precoces de doenças neurodegenerativas. O estudo do sono no idoso torna-se, portanto, relevante para identificar riscos e promover intervenções que preservem a saúde cerebral.

Elena Urrestarazu Bolumburu, consultora clínica na Universidade de Navarra, colaborou com a pesquisa.