
Quatro em cada cinco idosos com demência no Brasil não possuem diagnóstico médico da doença, revela um estudo liderado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A pesquisa demonstrou que mais de 80% dos idosos brasileiros que cumprem os critérios para demência nunca receberam confirmação clínica. O estudo analisou dados de 5.249 pessoas com 60 anos ou mais participantes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) e foi publicado na revista International Journal of Geriatric Psychiatry.
O subdiagnóstico da demência no Brasil reflete desigualdades regionais e estruturais na saúde, como a dificuldade de acesso a serviços e diferenças socioeconômicas. Segundo os pesquisadores, em regiões mais pobres do país, a ausência de diagnóstico chega a 90%, enquanto em regiões mais desenvolvidas essa taxa é de 76%. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentam maior índice de casos não diagnosticados, comparadas às regiões Sudeste e Sul, consideradas mais ricas economicamente.
O estudo identificou que viver sozinho aumenta significativamente o risco de não receber diagnóstico, enquanto idosos com maior escolaridade apresentam menor probabilidade de ficarem sem diagnóstico, possivelmente pela maior capacidade de reconhecer sintomas e buscar atendimento. Pessoas analfabetas tiveram 93,9% de ausência de diagnóstico, e idosos entre 60 e 69 anos apresentaram 87,9% de não reconhecimento da condição médica.
Além disso, a pesquisa aponta que o diagnóstico da demência enfrenta obstáculos estruturais, como a percepção equivocada de que o declínio cognitivo é normal no envelhecimento, pouca conscientização, estigma, falta de treinamento dos profissionais de saúde, fragmentação do cuidado e dificuldade de acesso a serviços especializados.
O artigo destaca que o Brasil tinha cerca de 2,5 milhões de pessoas vivendo com demência em 2025, número que pode triplicar até 2050 devido ao envelhecimento da população. Os pesquisadores defendem ações como o fortalecimento da detecção precoce, capacitação dos profissionais de saúde, ampliação do rastreamento na atenção primária e políticas direcionadas às desigualdades regionais para melhorar o reconhecimento e o cuidado da demência.
Os autores concluem que melhorar o diagnóstico no sistema público pode reduzir disparidades e ampliar o acesso aos serviços de saúde para pessoas com demência no país.