
Um modelo 3D inovador revelou a complexa rede nervosa do clitóris, órgão fundamental para o prazer sexual feminino. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram mapear em três dimensões o trajeto do principal nervo sensorial do clitóris, chamado de nervo dorsal, desde a pelve até a glande externa.
Historicamente, o corpo feminino recebeu menos atenção da medicina comparado ao masculino, resultado de uma lacuna de gênero que afeta a pesquisa e os tratamentos médicos. O clitóris, equivalente masculino ao pênis, tem anatomia semelhante, mas sua estrutura interna permaneceu pouco caracterizada até recentemente, com estudos sistemáticos iniciados somente no final dos anos 1990.
O estudo foi conduzido pela equipe liderada por Ju Young Lee, do Centro Médico da Universidade de Amsterdã, que utilizou a radiação síncrotron para gerar imagens de altíssima resolução. Essa tecnologia de raio X avançada possibilitou observar detalhadamente não só a glande visível, mas também os extensos ramos nervosos que se estendem pelo prepúcio e pelo monte púbico, contrariando a suposição anterior de que os nervos se tornam mais finos ao final do órgão.
No modelo 3D, os pesquisadores identificaram nervos com até 0,7 milímetro de espessura que se bifurcam em diversas ramificações dentro do clitóris, mostrando que a rede nervosa é mais extensa do que se imaginava.
Os resultados do estudo podem ter impacto direto em procedimentos clínicos como partos, cirurgias de redesignação de gênero e cirurgias reconstrutivas após mutilação genital, já que o detalhamento dos caminhos nervosos ajuda a prevenir danos durante intervenções na região vulvar. A falta de conhecimento sobre essa anatomia complexa contribui para que muitas alterações de sensibilidade e problemas sexuais não sejam associados a procedimentos anteriores.
Para a ginecologista Mandy Mangler, a pesquisa representou um avanço importante ao comprovar hipóteses sobre os ramos nervosos que chegam ao monte púbico e aos lábios vulvares. Ela ressalta a disparidade na atenção médica entre homens e mulheres, citando o esforço desproporcional em preservar nervos em cirurgias masculinas comparado à escassez de estudos sobre o sistema nervoso feminino.
Apesar do avanço, os métodos atuais analisaram apenas duas amostras post-mortem de mulheres idosas, deixando questões abertas sobre como o clitóris muda ao longo da vida, em fases como puberdade, gravidez e menopausa. Conforme destaca Ju Young Lee, o desenvolvimento de novas tecnologias será fundamental para ampliar o entendimento sobre essa estrutura.
Essa pesquisa integra o projeto internacional Human Organ Atlas Hub (HOAHub) e reforça a necessidade de ampliar o conhecimento sobre órgãos femininos ainda pouco estudados, garantindo avanços na saúde reprodutiva e sexual da mulher.