
A Síndrome dos Ovários Policísticos, condição hormonal comum em mulheres em idade reprodutiva, passou a ser oficialmente chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A alteração, publicada nesta terça-feira (12) na revista médica The Lancet, decorre de um consenso global envolvendo 56 organizações científicas, clínicas e associações de pacientes ao redor do mundo, além de mais de 14 mil respostas em pesquisas internacionais.
O Brasil integrou essa iniciativa por meio da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), representada pela endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). De acordo com Spritzer, o nome anterior era inadequado por focar apenas nos chamados “cistos”, que na verdade são folículos com crescimento interrompido e não cistos patológicos.
O termo “policísticos” sugeria erroneamente que a síndrome fosse causada pela presença de cistos patológicos nos ovários, o que não corresponde à realidade clínica. Na maioria dos casos, o ultrassom detecta múltiplos pequenos folículos com desenvolvimento interrompido, e não cistos. Essa imprecisão levou a uma visão limitada da condição, que envolve não apenas aspectos ginecológicos, mas também alterações metabólicas, hormonais, dermatológicas e psicológicas.
Segundo Alexandre Hohl, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da SBEM, o termo antigo causava confusão em pacientes e médicos, retardando o diagnóstico e dificultando o reconhecimento da síndrome como uma doença sistêmica.
A SOMP envolve múltiplos hormônios, incluindo insulina, androgênios, hormônio luteinizante e hormônio antimülleriano, o que justifica o uso de “poliendócrina”. A resistência à insulina está presente em cerca de 85% das pessoas com a síndrome, afetando inclusive mulheres magras. Essa condição está associada a riscos cardiometabólicos como obesidade, pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol alto, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Os sintomas frequentes incluem ciclos menstruais irregulares, dificuldade para engravidar, acne, aumento de pelos no rosto e corpo, queda de cabelo e ganho de peso. Além disso, a síndrome se relaciona a maiores índices de ansiedade, depressão e impacto negativo na qualidade de vida, muitas vezes agravados pelo estigma e atrasos no diagnóstico.
Os critérios diagnósticos permanecem inalterados. Em mulheres adultas, a SOMP é identificada pela presença de pelo menos dois dos três critérios principais: disfunção ovulatória, hiperandrogenismo clínico ou laboratorial e morfologia ovariana compatível ao ultrassom ou níveis elevados do hormônio antimülleriano. Para adolescentes, todos os três critérios devem ser simultaneamente observados com maior cautela.
O tratamento continua individualizado e pode incluir anticoncepcionais hormonais, antiandrogênicos, metformina, indutores de ovulação e acompanhamento metabólico. Mudanças no estilo de vida, como dieta equilibrada, atividade física e controle do peso, têm papel importante, especialmente para quem apresenta resistência à insulina.
A adoção do nome SOMP será gradual, abrangendo atualizações em prontuários eletrônicos, classificações internacionais de doenças como o CID da Organização Mundial da Saúde (OMS), diretrizes clínicas e materiais educativos para profissionais e pacientes, com expectativa de integração plena até 2028 em 195 países. A mudança visa também ampliar a visibilidade da síndrome em políticas públicas e incentivar o financiamento de pesquisas na área.