
A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) alerta para o risco de aumento de custos e obstáculos ao comércio e aos investimentos bilaterais caso os Estados Unidos implementem tarifas de 25% sobre determinados produtos brasileiros. A recomendação de tarifas foi divulgada após a conclusão de uma investigação conduzida pelo escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que identificou práticas brasileiras consideradas “irrazoáveis” e capazes de restringir o comércio americano.
A Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, usada para apurar práticas comerciais estrangeiras que ferem interesses americanos, fundamentou a investigação iniciada em julho do ano passado contra o Brasil. O relatório final, com 107 páginas, aponta que políticas brasileiras relacionadas a comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, combate à corrupção e acesso a mercados prejudicam as empresas americanas. Um dos pontos destacados é o sistema de pagamentos Pix, que, segundo o documento, favorece o uso nacional em detrimento de concorrentes americanos.
O documento propõe a aplicação de tarifas retaliatórias de 25% sobre produtos brasileiros, mas prevê exceções para itens que possam causar impactos negativos à economia dos EUA, como café e produtos aeronáuticos. A Amcham defende a necessidade de esforços diplomáticos para evitar que as medidas tarifárias sejam mais rigorosas e ressalta que a recomendação ainda será discutida nas próximas semanas.
Além disso, está em andamento uma segunda investigação norte-americana sob a mesma Seção 301, relacionada a produtos supostamente fabricados com trabalho forçado. Este processo pode resultar em tarifas adicionais para cerca de 60 países, incluindo o Brasil. Diante desse cenário, a Amcham considera fundamental uma solução negociada para evitar maior impacto sobre as exportações brasileiras.
Especialistas apontam que os setores brasileiros protegidos pelas exceções podem sofrer pouco impacto imediato, mas segmentos como a manufatura de média complexidade podem ser afetados. O economista Guilherme Klein Martins destaca que a discussão sobre o Pix pode gerar incertezas na relação bilateral, mesmo sem efeitos diretos no curto prazo.
Martins ainda observa que o ambiente de tensão entre Brasil e Estados Unidos aumentou após as recentes classificações das organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas pelo governo norte-americano. Isso pode reduzir o interesse de investidores estrangeiros no país enquanto os desdobramentos do caso ainda são avaliados.
A Amcham enfatiza que o relatório do USTR ainda passará por consulta pública e que eventual aplicação das tarifas dependerá tanto da decisão final americana quanto do andamento político brasileiro pós-eleições, quando o quadro poderá ser revisto. Segundo Abrão Neto, presidente da entidade, “há tempo para evitar a adoção de novas tarifas e o setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem esforços para preservar o comércio e os investimentos”.