
Carros inteligentes modernos transformaram-se em dispositivos capazes de coletar uma grande quantidade de dados pessoais dos motoristas. Montadoras e outras empresas utilizam essas informações para múltiplas finalidades, incluindo venda para terceiros e ajustes em contratos de seguros.
Nos Estados Unidos, a legislação relacionada à privacidade de dados automotivos ainda é fragmentada e considerada insuficiente por especialistas. Enquanto isso, uma nova lei federal deve obrigar montadoras a equipar veículos com câmeras biométricas infravermelhas para detectar se o motorista está alcoolizado ou exausto, aumentando o volume de dados colhidos sem regras claras sobre seu uso.
Segundo pesquisa da Mozilla realizada em 2023, que analisou as políticas de privacidade de 25 marcas, nenhuma delas atendeu aos padrões básicos de segurança e privacidade. Dados como localização, comportamento no trânsito, informações biométricas, perfil psicológico e até hábitos pessoais estão entre os dados coletados e comercializados. A Kia, por exemplo, inclui em sua política a possibilidade de coletar informações relacionadas à saúde e vida sexual, embora afirme não praticar essa coleta.
Muitos veículos já contam com conectividade à internet, sensores, câmeras internas e externas que registram praticamente todas as ações do motorista e passageiros. Esses dados podem ser vendidos a seguradoras, influenciando o valor dos seguros, conforme apontado por relatos nos quais motoristas tiveram reajustes baseados no comportamento ao volante.
Órgãos reguladores nos EUA, como a Comissão Federal de Comércio (FTC), impuseram restrições temporárias a algumas montadoras, como a General Motors, proibindo a venda de dados sem consentimento explícito dos usuários. Mesmo assim, outras empresas continuam negociando informações derivadas de veículos conectados e aplicativos.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) regula o compartilhamento de dados pessoais, mas muitos usuários não têm conhecimento ou controle efetivo sobre as informações coletadas por seus veículos.
Para mitigar riscos, especialistas recomendam evitar programas de telemetria oferecidos pelas seguradoras, além de revisar as configurações de privacidade disponíveis nos sistemas multimídia dos carros e nos aplicativos conectados. Nos Estados Unidos, Europa e Reino Unido, consumidores também podem solicitar acesso, exclusão e restrição da venda de seus dados.
Apesar das vantagens da tecnologia, como aumento da segurança e praticidade, a coleta e o uso extensivo de dados pessoais em carros inteligentes levantam preocupações sobre privacidade que ainda carecem de regulamentação abrangente e mecanismos de proteção mais eficazes.