Medidas do governo para conter alta dos combustíveis impactam competitividade do etanol, avaliam especialistas
16/05/2026 / 09:27
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Foto: Reprodução

A subvenção de R$ 0,89 por litro de gasolina anunciada pelo governo federal na última quarta-feira (15) acendeu mais um alerta no setor sucroenergético. A medida pode reduzir ainda mais a competitividade do etanol no mercado interno, segundo avaliação de representantes do setor e especialista em mercado.

O presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool), Edmundo Barbosa, afirma que o principal impacto da medida é o aumento do desequilíbrio entre os preços praticados nas usinas e os valores finais pagos pelos consumidores nos postos.

“Um dos pontos mais críticos hoje é o imenso descompasso de preço em função do subsídio dado à gasolina. Os produtores estão sendo sufocados pelas margens existentes na distribuição. Isso cria uma distorção de mercado que prejudica os produtores de etanol e também o consumidor, que deixa de ter acesso ao biocombustível a preços mais competitivos”, afirma.

Dados do Indicador Semanal do Etanol Hidratado Combustível CEPEA/Esalq mostram que, na Paraíba, o preço do etanol hidratado na saída das usinas estava em R$ 2,9801 por litro no dia 8 de maio de 2026, sem incidência de frete, ICMS e tributos federais. Já nos postos de combustíveis da Paraíba, levantamento da ANP referente ao dia 9 de maio aponta que o etanol hidratado foi comercializado com preço médio de R$ 4,80 por litro, variando entre R$ 4,67 e R$ 5,39.

No mesmo período, a gasolina comum apresentou preço médio de R$ 6,44 por litro, com valores entre R$ 6,24 e R$ 6,73.

Tradicionalmente, o etanol hidratado é considerado economicamente vantajoso ao consumidor quando seu preço corresponde a até cerca de 70% do valor da gasolina, embora veículos mais modernos possam apresentar vantagem mesmo em percentuais próximos de 72% a 75%, dependendo da eficiência do motor.

Na Paraíba, com o etanol médio a R$ 4,80 e a gasolina média a R$ 6,44, a relação está em aproximadamente 74,534 %.

“Ou seja, o etanol está próximo do limite de competitividade econômica para muitos consumidores, exatamente o tipo de situação em que políticas que artificialmente reduzem o preço da gasolina tendem a deslocar demanda do biocombustível”, comenta Barbosa.

Para o Sindalcool, a diferença entre os preços reforça o debate sobre margens de distribuição, competitividade do etanol e políticas públicas voltadas ao setor de biocombustíveis.

“No mercado de combustíveis, a rentabilidade do posto não depende apenas da margem por litro, mas principalmente do volume comercializado e da velocidade de reposição dos estoques. Quando o etanol se torna mais competitivo em relação à gasolina, aumenta a procura pelo biocombustível, elevando o fluxo de abastecimentos e o giro operacional dos postos. Em muitos casos, vender mais litros de etanol com maior frequência pode gerar resultado financeiro superior ao obtido com margens maiores e menor volume de vendas. Além disso, o preço mais atrativo do etanol estimula o consumidor a retornar com maior frequência ao posto, ampliando também as vendas agregadas das lojas de conveniência e outros serviços”, diz Edmundo.

“Como os veículos flex representam a maior parte da frota brasileira, pequenas diferenças de preço entre gasolina e etanol alteram rapidamente a escolha do consumidor. Quanto mais competitivo estiver o etanol na bomba, maior tende a ser o consumo e o giro do produto nos postos”, finaliza o executivo.

Especialista diz que medida contradiz estratégia brasileira e desestimula investimentos no setor sucroenergético

O presidente da DATAGRO, Dr. Plinio Nastari, especialista em mercado de combustíveis e etanol, avalia a questão.

“A medida provisória editada pelo governo contradiz a estratégia brasileira de colocar os biocombustíveis no centro da sua estratégia de descarbonização. Essa medida vem acompanhada de um não repasse de um preço de paridade de importação pela gasolina pela Petrobras nas refinarias, preço hoje que se compra hoje 44% abaixo da paridade de importação”, diz o especialista.

“Essa é uma medida que desestimula investimentos na área de combustíveis renováveis e cria uma distorção que desincentiva investimentos numa área estratégica que gera empregos, que gera economia circular no interior do país num momento em que o preço de etanol desde o dia 1 de janeiro de 2026 o preço ao produtor já caiu mais de 22% e o preço ao consumidor caiu apenas 2%”, ressaltou.

Nastari também comentou sobre o atraso do projeto do governo brasileiro de aumentar para 32% o percentual de etanol anidro misturado à gasolina vendida nos postos de combustíveis .

“Causa também surpresa o atraso da implementação de elevação da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% e a mistura de biodiesel no diesel de 15% para 16%, que faz todo o sentido nesse momento, pois o Brasil continua importando esses combustíveis. São 3,5 bilhões de litros de gasolina por ano e continua importando cerca de 17 bilhões de litros de diesel”, finalizou.

Debate envolve transição energética e segurança do setor

O Sindalcool avalia que medidas emergenciais para controle de preços precisam considerar também os impactos sobre os biocombustíveis, considerados estratégicos para a descarbonização da matriz energética brasileira.

Segundo a entidade, o etanol desempenha um papel fundamental na redução das emissões de gases de efeito estufa, podendo reduzir em até 90% as emissões de carbono quando utilizado em substituição à gasolina.

Além dos benefícios ambientais, o setor sucroenergético também possui forte impacto socioeconômico, sendo responsável pela geração de cerca de 20 mil empregos diretos na Paraíba e impulsionando renda e desenvolvimento em diversas regiões produtoras do país.