
Consumidor não sente na bomba redução registrada nas usinas, diz Sindalcool-PB
O Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool-PB) voltou a alertar nesta sexta-feira (29), para o aumento do descompasso entre o preço do etanol nas usinas e os valores praticados ao consumidor final nos postos de combustíveis. De acordo com a entidade, os produtores enfrentam forte pressão sobre receitas e custos operacionais e os consumidores não sentem, na mesma proporção, a redução do preço nas bombas.
Segundo o indicador semanal CEPEA/ESALQ, que indica o preço nas usinas, para o etanol hidratado combustível na Paraíba, o preço caiu de R$ 3,3579/litro na semana de 13 a 17 de abril para R$ 2,8274/litro na semana de 11 a 15 de maio de 2026. Ou seja, o etanol hidratado no estado acumulou uma redução de cerca de 15,8% no período analisado.
“É uma redução expressiva na origem do produto. Esse dado convida a uma pergunta legítima e construtiva, se o preço na usina caiu de forma relevante, como essa redução está sendo transmitida ao consumidor final? A pergunta não deve ser formulada em tom de acusação, mas de interesse público. O mercado de combustíveis tem vários componentes como produção, tributos, frete, logística, distribuição, custos operacionais, margem da revenda e dinâmica competitiva local. Exatamente por isso a transparência é essencial”, disse Edmundo Barbosa, presidente-executivo do Sindalcool.
Já nos postos de combustíveis da Paraíba, levantamento da ANP referente ao dia 9 de maio aponta que o etanol hidratado foi comercializado com preço médio de R$ 4,80 por litro, variando entre R$ 4,67 e R$ 5,39. No mesmo período, a gasolina comum apresentou preço médio de R$ 6,44 por litro, com valores entre R$ 6,24 e R$ 6,73. Com esse valor, a relação entre os dois combustíveis está em aproximadamente 74,534 %.
Essa não é uma situação regional. Dados da S&P Global Energy mostram que o preço do etanol hidratado base usina em Ribeirão Preto, São Paulo, caiu 23% entre 2 de março e 17 de maio de 2026, passando de R$ 3,60 para R$ 2,77 por litro. No entanto, no mesmo período, a queda média registrada nos postos do estado de São Paulo foi de apenas 10%, saindo de R$ 4,44 para R$ 3,99 por litro, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
“Neste momento de alta internacional dos combustíveis fósseis, o produtor enfrenta uma espécie de ‘tempestade perfeita’: aumento dos custos de produção, principalmente pela exposição ao diesel, e queda expressiva no preço do etanol hidratado nas usinas”, afirma Nicolle Monteiro de Castro, mestre em Agronegócio pela FGV e especialista comercial para agronegócio na América Latina da S&P Global Energy.
Segundo dados da Platts, da S&P Global Energy, o preço do etanol hidratado à base usina em Ribeirão Preto caiu 23% entre 2 de março e 17 de maio de 2026, passando de R$ 3,60 para R$ 2,77 por litro.
De acordo com a especialista, o etanol hidratado possui papel estratégico para o Brasil. “O etanol é o principal substituto renovável da gasolina para os veículos flex-fuel, que representam mais de 85% da frota leve brasileira.Uma maior oferta do combustível renovável já poderia atuar a favor da segurança energética do Brasil, em um momento de crise global de abastecimento de combustíveis fósseis, bem como favorecer os consumidores com uma molécula a preço mais competitivo”, destaca.
Medida do governo federal tem impacto negativo para o setor produtivo de açúcar e etanol
Dias antes, o Sindalcool-PB já havia alertado para os impactos da subvenção de R$ 0,89 por litro da gasolina anunciada pelo governo federal. Segundo a entidade, a medida pode reduzir ainda mais a competitividade do etanol no mercado interno e ampliar o desequilíbrio entre os preços praticados nas usinas e os valores pagos pelos consumidores nos postos de combustíveis.
A especialista da S&P Global Energy, Nicolle Monteiro, também comentou sobre o cenário atual do mercado de combustíveis.
“Neste momento, a expectativa é de que o consumo de hidratado, principalmente nos estados do Sudeste, comece a reagir aos preços mais baixos na bomba. De acordo com dados da ANP, na semana do dia 17 de maio, a paridade no estado de São Paulo foi registrada em 62%, menor nível desde a semana encerrada em 24 de março de 2024”, disse.
“Com base na experiência relatada acima sobre o não repasse dos preços mais baixos do etanol aos consumidores finais, ainda existe a possibilidade de que, no caso da gasolina C subsidiada, o preço mais baixo também seja absorvido pelos revendedores, os quais poderão ver uma possibilidade de ampliação de margens e não repassar ao consumidor final. Caso tal comportamento ocorra, teremos um cenário no qual apenas os intermediários, ou seja, a revenda, se beneficiará das medidas de intervenção nos preços dos combustíveis e colocaremos em risco o setor produtivo de etanol o qual depende diretamente da formação de preços da gasolina C. Destaco que os biocombustíveis são parte das diretrizes nacionais para neutralidade climática, bem como garantem a segurança energética do país desde a crise do petróleo de 1975 e, portanto, sua manutenção e ampliação devem ser consideradas estratégicas para o Brasil.”, finalizou a especialista.