Leitura profunda e seus efeitos no cérebro
28/04/2026 / 15:45
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Foto: Getty Images via BBC 

A leitura profunda é um processo que altera o funcionamento do cérebro, conectando regiões visuais, linguísticas, de pensamento e emoção. Segundo a neurocientista Maryanne Wolf, a alfabetização não é um processo natural, mas sim uma invenção humana que exige a formação de novos circuitos cerebrais para decodificar símbolos visuais e verbais. A leitura profunda vai além da simples decodificação; ela envolve a capacidade de realizar analogias, inferências e pensamento crítico, ativando áreas do córtex cerebral que promovem a análise e empatia.

Contexto histórico e evolução da leitura

Ao contrário da linguagem oral, que se desenvolve naturalmente no ser humano, aprender a ler é um processo cultural e recente, com cerca de seis mil anos. Essa habilidade surgiu para armazenar e compartilhar conhecimento por meio de sistemas alfabéticos. Atualmente, o avanço das mídias digitais tem modificado hábitos de leitura, com uma prevalência crescente da leitura em telas, que tende a fragmentar a atenção e reduzir a capacidade de compreensão profunda de textos longos.

Benefícios terapêuticos e cognitivos

A leitura profunda traz benefícios importantes para a saúde mental, promovendo criatividade, inteligência e empatia. Estudos relacionam a prática da leitura ao desenvolvimento do pensamento analítico e à melhora das habilidades sociais. A biblioterapia, que utiliza a leitura como recurso terapêutico desde a Grécia Antiga, tem demonstrado efeitos positivos na redução da ansiedade e na melhora do estado emocional dos leitores.

Impactos da leitura digital

Pesquisas internacionais coordenadas por Anne Mangen indicam que a leitura em dispositivos digitais pode prejudicar o entendimento de conteúdos complexos devido à fragmentação da atenção. A leitura superficial em telas favorece o acesso rápido à informação, mas compromete a consolidação do conhecimento e as conexões cerebrais associadas à compreensão profunda. Além disso, o excesso de informações disponíveis pode levar à leitura ‘por alto’, impactando a qualidade da experiência de leitura e do processamento cognitivo.

Futuro da leitura e adaptações

Apesar dos desafios colocados pelas mídias digitais, especialistas destacam que a imaginação e a flexibilidade humana podem permitir a adaptação das práticas de leitura. O conceito de um cérebro ‘biletrado’ é citado como uma possível solução, em que o leitor aprende a escolher o meio mais adequado para o tipo de leitura. Autores também relatam mudanças na produção literária, com livros mais curtos, visuais e adaptados ao tempo de atenção atual dos leitores.

Este texto é baseado no vídeo “O que a leitura em telas faz com nosso cérebro?”, da BBC Ideas e The Open University, publicado em 1 de novembro de 2021.